Começou, ontem, a 83ª edição da Feira do Livro de Lisboa e eu, obviamente, quero ver se lá dou um salto. Desde há alguns anos a esta parte desenvolvi este hábito, ou antes ritual, de me deslocar ao Parque Eduardo VII, passear-me durante uma ou duas horas por aquela ocasional conjugação de folhas arbóreas e folhas livrescas, comer uma fartura ou um gelado, beber um café ou uma imperial, e desembolsar consideráveis maquias em palavras alheias que passam a ser um pouco minhas, também.
Na edição do ano passado, se a matemática não me falha, a 82ª, recordo-me de chegar ao Marquês de Pombal já aviado com um pequeno saco contendo dois ou três grandes livros. Cruzei-me então com um antigo colega de escola, muito mais robusto fisicamente do que ao nível cognitivo. Depois dos costumados cumprimentos ele disse-me, sorridente: "Fostes comprar livros, não é? Continuas com a mania de que és intelectual, está visto..."
A esta interpelação eu respondi do seguinte modo:
- "Repara, se eu, efectivamente, tivesse a mania que sou intelectual, sugerir-te-ia agora que, de modo célere e resoluto, encetassses a subida desta alameda, prenhe de cultura e saber, e que ao lograres alcançar o topo da mesma sentasses o teu hediondo traseiro na escultura fálica com que João Cutileiro pretendeu assinalar os 25 anos comemorativos da revolução dos cravos. Não tendo eu essa mania, mando-te apenas e só para o caralho!"
Depois desatei a correr Avenida Fontes Pereira de Melo acima, porque levar sopapos no focinho é algo de que não retiro especial prazer.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Macacos-narigudos e outros macacos
São apenas dois os assuntos que aqui me trazem hoje. Coloquemo-los por ordem cronológica invertida (primeiro o que aconteceu em último lugar e em último lugar o que ocorreu primeiramente):
1) Ontem, pouco depois de virar dois pratos de empadão de atum, pus-me a ver, na RTP2, a recta final de um programa sobre a fauna da ilha do Bornéu. Parece que, devido ao peculiar clima e a outras especificidades ambientais daquela região, são comuns alterações morfológicas nas mais diversas espécies. Por exemplo, parece ser comum encontrar-se ali um escaravelho gigante ou um elefante pigmeu. Porém, para além desses animais mutantes, qualquer ambiente florestal que se preze requer macacos a saltitar pelos galhos das suas árvores. Apareceram, então, uns quantos macacos-narigudos, bichos castiços mas, infelizmente, em vias de extinção. Quase no final do programa, uma primatologista, de invulgar beleza para aquelas andanças, refira-se, afirmou, peremptoriamente, que quanto maior for a penca dos machos, maior será a atracção que as fêmeas por eles sentem. Se o Júlio Isidro tiver visto o mesmo programa deve ter maldito a sua sorte por as mulheres não pensarem da mesma forma que as macacas-narigudas.
2) Por falar em macacos, também ontem, antes do empadão, recebi este SMS no meu telemóvel: "Andaste a meter com a melher dos otros, pode ser k ainda teinhas azar na vida, meu cabrão!!! Se te apanhu vais a ver!!!". Importa aqui referir que eu não conheço o remetente daquele conjunto de "palavras", mas consegui depreender o tom ameaçador com que se me dirigiu. Contudo, não estou seguro de o ter compreendido plenamente. Se alguém tiver algumas noções de escrita paleolítica, eu agradeço a ajuda. Espero, entretanto, que não seja algum macaco de nariz pequeno, todo cioso da sua fêmea. Porque, na minha óptica, todos os homens que amam verdadeiramente as respectivas mulheres, deveriam proceder com elas como procedem com uma boa publicação do facebook: se gostam, devem partilhar!
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Histórias de bairro
Ainda mal o sol raiava, e rasgava as espessas malhas da noite, quando, das entranhas de um magnífico e esplendoroso corpanzil, rompeu altissonante brado. Toda a vizinhança se sobressaltou, e foram, a pouco e pouco, assomando, às janelas, cabeças que se manifestavam, à uma, curiosas e estremunhadas.
Após breves segundos despertadores, oportunos para remover indesejáveis remelas, principiaram as opiniões concernentes à origem do berro:
- Isto é a mais velha do Bento que já lá meteu macho em casa! Que pouca vergonha, não pode apanhar os pais na terra que é isto. Havia de ser minha filha, que eu cá lhas contava! - atirava, de rompante, a D. Deolinda.
- Não, não! - corrigia, prontamente, a D. Carlota - Isto é voz de moço, e moço de juízo toldado. Deve ser o filho da Leonor, benza-o Deus. Coitada, que cruz a dela. Raios partam o marido que não lhe bastava ter fugido com outra, ainda lhe havia de deixar um filho manglóide por criar.
- Quer-me parecer que estão ambas enganadas, comadres. - atalhou a D. Alzira - Isto não foi senão o carteiro com alguma carta registada e, como que não lhe atendessem à porta, berrou...
- Ou então foi só o uivo de algum cão, nós é que ainda estamos meio assarapantadas com o acordar assim às pressas, ó vizinhas! - opinou a D. Idalina.
Depois de tudo isto ouvir, saí da soleira da porta em que me encontrava e disse:
- Alto lá, suas pegas! Isto fui só eu que cheguei agora bêbedo e mandei com os cornos num poste. Mas se o Bento está na terra, esperem lá que eu já lhe vou tratar da tosse à filha.
Posto isto, as senhoras chamaram-me ordinário em uníssono e recolheram aos respectivos aposentos num forte estrepitar da madeira e do alumínio das janelas.
sábado, 27 de abril de 2013
Transportes (demasiado) públicos
Já há algum tempo que não andava de transportes públicos com a frequência que tenho andado no último par de meses. Não me parece que o porquê dessa mudança de hábitos seja da vossa conta, no entanto, façam as conjecturas que bem entenderem, pois estou-me bem a cagar para isso. Pode, muito bem, ser porque não me apetece contribuir regularmente para o enriquecimento das gasolineiras, ou porque não tenho meios financeiros para contribuir regularmente para o enriquecimento das gasolineiras. Pode, também, sê-lo porque não tenho, sequer, veículo próprio ou carta de condução. Pode, outrossim, dever-se ao facto de até há dois meses atrás eu mais não fazer do que ficar no conforto do lar a coçar este valente par de tomates que é o meu, sobrevivendo às custas da Segurança Social, e agora, acabado o subsidio, ver-me forçado a alancar num restaurante, café ou estabelecimento afim. Ou pode, simplesmente, acontecer porque gosto de me embrenhar entre a comum das gentes, ora tentando escutar diálogos obtusos entre intervenientes menos esclarecidos, ora tentando escutar monólogos oclusos de um ou outro chanfrado, ora tentando observar comportamentos estranhos, manias, tiques nervosos, e perante tudo isso, regozijar-me por, afinal, reparar que não bato tão mal do penico quanto julgava.
Ontem, em plena carruagem do Metro, ditou a sorte madrasta, que se sentasse à minha frente um monhé (a atirar mais para o paquistanês do que para o indiano, mas com similar bedum a caril). Trazia um turbante na tola, que lhe conferia, à vontade, mais meio metro de altura, exibia farfalhuda barba branca, olhos negros e penetrantes, suava em bica, murmurava imperceptivelmente e trazia um saco suspeito dependurado do braço esquerdo. Múltiplos e estridentes alarmes soaram, de imediato, na minha cabeça e saí dali a correr, disparado. Se o paquistanês rebentou com a carruagem, e com quantos iam nela, não sei, ainda não vi nenhum noticiário desde então. Mas sei que eu estou a escrever este texto, todo inteiriço, pois sou muito mais apologista do mais vale prevenir do que remediar, do que do depois de casa roubada, trancas à porta.
Transporte alternativo ao Metro? Autocarro, ora pois. Rapariguita nova, vulgarmente designada por pita, entra na paragem posterior àquela em que entrei e senta-se no lugar defronte àquele em que o meu distinto rabo assentava. Falava, ou antes, gritava ao telemóvel. Do que a interlocutora dizia do outro lado não pude, obviamente, ter certezas, mas a minha companheira de viagem expelia, boca fora, alarvidades desta espécie, entremeadas com um riso particularmente irritante: "Fostes à festa, ontem?"; "Ina, encontrastes o Nélson? Tipo, o gajo é alto pão, né?"; "Há-des me dizer porque é que não me convidastes, sua porca!"; "Iá, fui ao Mac. Almocei alta Big Mac e McFlurry"
Não fosse o elevadíssimo apreço que nutro pelo segundo tomo do Dom Quixote de la Mancha, edição de coleccionador em capa dura, e juro que ela, para além do Big Mac e do McFlurry, tinha almoçado com ele nos cornos.
sábado, 20 de abril de 2013
Quando eu for grande...
Cansados que estejam, ou não, de ler o que escrevo, continuarei a submeter-vos à pena da minha pena, enquanto tal me der na real gana. Uma vez mais, dei com um texto que remonta à minha mais primeva idade, época de menores ralações e de mais farto cabelo. Depois de aqui vos ter deixado as minhas composições subordinadas aos temas do cão e da praia, desta feita reproduzirei integral e fielmente uma redacção intitulada Quando eu for grande...
Quando eu for grande o meu pai vai ser mais grande ainda, ou então vai morrer porque já vai ser velhote, só que eu não queria que o meu pai morresse, nem a minha mãe, nem a minha irmã, nem a professora dona Ermelinda. Os outros para mim podiam morrer todos, estes é que não..
Quando eu for grande já não vou vir para a escola com a mala toda cheia de livros, e cadernos, e lápis, e canetas, e apara-lápis e essas coisas todas que sozinhas nem pesam muinto, mas que todas juntas, parecendo que não, ainda custam a carregar. Eu por acaso até não sei se pesam, o Marco é que diz que sim, porque ele traz sempre a mochila dele e a minha, mas não é porque eu digo que lhe parto a cara toda se ele não trazer, ele é que quer assim.
Quando eu for grande vou ter barba e as raparigas vão-se queixar-se porque as vou picar quando lhes der beijinhos na cara. Mas se for na boca elas já não se vão se queixar-se, e vão gostar. Só que vão dizer para eu parar e vão-me empurrar-me, e depois vão-me puxar-me pela camisola para eu dar mais, que eu já apanhei a minha irmã a fazer isso a uns quantos marmanjos.
Quando eu for grande vou jogar no Benfica, no lugar adonde joga o Magnusson, só que vou ser português e moreno, e vou marcar ainda mais golos do que ele, porque eu também jogo bem com os pés, não é só com a cabeça. Mas à baliza não vou, porque à baliza vão sempre os que não sabem jogar à frente. Outra coisa que eu também gostava de ser era polícia, para prender os ladrões e os assassínios. E eu sei que vou ser bom polícia, porque quando jogamos às pistolas lá na rua, eu ganho sempre. Os outros dizem que eu sou batoteiro, e que só com um tiro mato aos três e aos quatro, mas é mentira, tenho é a apontaria afinada. O que eles tem todos, é mal em perder.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Coito ou concerto? "Não o sei e sei-o bem" (título este, que até ao ponto de interrogação, é da minha autoria, mas que depois disso é daquele caixa de óculos que mamava absinto que nem um camelo e depois era mais que um. Pois, pudera! Agora falha-me o nome do gajo)
Aqui há dias, por motivos alheios à minha mais pura vontade, e por (má) via televisiva, vi a Ana Malhoa em pleno coito. Ou foi em pleno concerto? Não, aquilo era coito. Vá, concedo que talvez fosse uma síntese das duas coisas, mas claramente a pender mais para o lado do coito. Perante tal visão, não pude evitar que os seguintes pensamentos desembarcassem no meu cérebro em catadupa, quais tropas aliadas na Normandia:
- Esta gaja tem mais tinta no corpo do que uma loja da Robbialac tem em stock;
- Entre ir vê-la ao vivo e ir a um bar de Striptease, encontro apenas duas diferenças: no bar de Striptease tenho de calçar um sapatinho para entrar, nem que seja um mocassin, e as strippers sempre entram em palco vestidas;
- Malho(u-)a? Quem? O Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e Vale do Tejo?;
- Com tanto azucar, azucar, azucar, ainda é capaz de lhe dar uma hiperglicemia;
- Já há muito tempo que não me sentia violado por uma mulher sem que ela sequer me tocasse. Será que a engravidei? É que nem tive tempo de me encamisar...
"Ah e tal, ó Juvenal, és um ganda porco, a falar assim da rapariga" - dirão os Austrolopitecos e outros hominídeos supostamente extintos, mas que dão, amiúde, ares da sua graça. Pá, se calhar até sou, mas pelo menos tomo um banhinho quando acabo de pintar a sala, em vez de me ir pôr a dar "concertos".
- Esta gaja tem mais tinta no corpo do que uma loja da Robbialac tem em stock;
- Entre ir vê-la ao vivo e ir a um bar de Striptease, encontro apenas duas diferenças: no bar de Striptease tenho de calçar um sapatinho para entrar, nem que seja um mocassin, e as strippers sempre entram em palco vestidas;
- Malho(u-)a? Quem? O Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e Vale do Tejo?;
- Com tanto azucar, azucar, azucar, ainda é capaz de lhe dar uma hiperglicemia;
- Já há muito tempo que não me sentia violado por uma mulher sem que ela sequer me tocasse. Será que a engravidei? É que nem tive tempo de me encamisar...
"Ah e tal, ó Juvenal, és um ganda porco, a falar assim da rapariga" - dirão os Austrolopitecos e outros hominídeos supostamente extintos, mas que dão, amiúde, ares da sua graça. Pá, se calhar até sou, mas pelo menos tomo um banhinho quando acabo de pintar a sala, em vez de me ir pôr a dar "concertos".
sábado, 13 de abril de 2013
Queres vir cá a casa "ver um filme"?
São variadíssimas as vezes em que a, nunca por demais celebrada, questão que intitula este texto, me é dirigida por senhoras carentes e libidinosas. É óbvio, até aos olhos das almas mais castas, que a questão encerra em si um significado completamente distinto daquele que aparenta, daí as aspas que cercam as três últimas palavras.
Ao responder positivamente à questão, como quase sempre acontece (a isso obriga a minha masculinidade), ambos ficamos a saber, eu e a ocasional senhora, que seremos nós os únicos protagonistas desse "filme" com classificação para maiores de 18 anos e que o mesmo terá, garantidamente, um final feliz; ambos ficamos a saber, eu e a ocasional senhora, que será uma questão de rebobinar e passar para a frente, de rebobinar e passar para a frente, de rebobinar e passar para a frente, com eventuais pausas pelo meio, até chegar o inevitável clímax da acção; ambos ficamos a saber, eu e a ocasional senhora, que depois do clímax ela quererá ver os créditos, e eu, que abomino os créditos, quererei apenas fazer uma breve recensão crítica do "filme" e vir-me embora sem mais delongas.
Que se torne assim límpida a hipocrisia que subjaz a esta questão. O pretexto do filme é um dos mais triviais, nestas ocasiões, assim como o é o truque do balde de pipocas no cinema. A título de exemplo, ontem, do filme "De rouille et d'os" não vi senão a primeira cena, mas a ocasional senhora viu, e sentiu animadamente, o "os".
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