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quarta-feira, 13 de março de 2013

Ramiro

Em tempos pretéritos, viveu, no local que é hoje conhecido como Arroteia, um homem formidável, tanto em dimensão corporal, como em pobreza de intelecto. Em altura, cinco pipas de moscatel empilhadas não lhe fariam justiça; em largura, três tonéis de tinto acoplados não se lhe comparariam, em inteligência toda e qualquer rocha, calhau ou pedregulho lhe faria frente.

À sua repugnante fisionomia somava-se ainda uma estranha disfunção que fazia com que Ramiro, assim se chamava o infeliz, vertesse merda pelos olhos e lágrimas pelo cu. Não sei através de que processos gastroenterológicos ou lacrimais isso acontecia, nunca ninguém o soube. Nem mesmo tendo sido consultados os mais virtuosos doutores da medicina e da igreja, se conseguiu chegar a uma conclusão. Os primeiros ficavam boquiabertos e abismados, sem qualquer explicação cabal para que tal acontecesse, uma vez que não detectavam qualquer distopia interna, à excepção da reduzida dimensão encefálica; os segundos não ficavam menos estupefactos, mas exclamavam que se os desígnios do Senhor haviam ditado que assim fosse, não poderiam senão resignar-se e orar para que o supra-mencionado Senhor minimizasse o sofrimento de Ramiro, e não deixasse tresmalhar aquela ovelha do seu infinito rebanho.

A todos os exames e observações a que era sujeito, Ramiro submetia-se de impávido e sereno modo. Para sorte dos narizes dos seus conterrâneos, poucas eram as vezes em que se entristecia ou se deixava abater pelo infortúnio. Muito pelo contrário, como é, aliás, apanágio dos tolos, Ramiro babava-se e ria-se em demasia e, no mais das vezes, a despropósito. Mas à noite, na solidão da sua alcova, quer fosse por medo do escuro, quer fosse por lamentar a sua desdita, o disforme indivíduo chorava e cheirava muito a merda.   

Faleceu ainda novo, quando aos 35 anos de idade o acometeu uma atroz diarreia que o fez chorar durante dias, o que, por sua vez, fez chorar toda a vizinhança.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Bom Natal, mas é o...

Julgavam que eu já tinha quinado, não? Enganam-se, ainda estou vivo e recomendo-me. Quem quinou foi um tio meu que vivia lá para o interior, e eu vi-me forçado a deslocar-me até lá para velório, funeral e testamento, onde, curiosamente, constava o meu nome. O velho não tinha filhos, pelo que achou por bem que eu ficasse com grande parte do seu património, ou seja, com o seu canivete suiço e uma boina, daquelas à velho, que, pelo cheiro a bedum, já não devia ser lavada  desde a assinatura do tratado de Tordesilhas.

Ao voltar para casa, pisei a poia que um qualquer canídeo deixou mesmo à minha porta. Contra o bicho não tenho nada, porque os animais agem de acordo com as suas necessidades primárias, sem passar grande cartão a indicações cerebrais. Já contra o dono tenho aqui o canivete suíço com que limpei a merda do meu sapato, e com que lhe limparei o sarampo, se preciso for.


Portanto: bom Natal mas é o raio que vos parta! E isto é para não escrever "bom Natal mas é o caralho que vos foda bem no meio dos vossos cus!",  porque há senhoras que lêem isto, e um ou outro maricas também. Num e noutro caso, tratam-se de pessoas de extrema sensibilidade a quem este  tipo de linguajar pode ofender, muito embora sejam as que mais se  sujeitam  a albergar o mangalho entre as bochechas do pandeiro.