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quarta-feira, 6 de março de 2013

A vaca grega e o bandarilheiro senegalês

É, demasiadas vezes, volátil, esta vida que vamos levando. Ora nos sentimos abençoados pela graça divina, com uma sucessão de dias imaculados, ora nos vemos confrontados com dores de cabeça da mais diversa ordem, quer sejam elas motivadas pela vileza de outrem, quer pela nossa própria necedade.


Vem esta conversa a propósito de um amigo que tenho e estimo, e que há dias se viu presenteado com uma parelha de chifres pela sua loiríssima e lésbica esposa. É lésbica, não por venerar cricas, como o homem que escreve estas linhas,  mas antes por ser esse o gentílico de quem é natural da grega ilha de Lesbos. Venerasse ela cricas, como o homem que escreve estas linhas (nunca é demais realçá-lo), e o Raúl não a teria apanhado nos preparos em que apanhou.

Situação cliché ou não, o certo é que o Raúl regressou mais cedo a casa, nesse dia de má memória. Entrou no quarto e deu com a Aristocleia a cavalgar o tisnado varapau de um vendedor ambulante de origem senegalesa. Eu já o advertira de que a flor grega não era das que se cheirassem, mas ele não confiou no meu apurado olfacto no que concerne à detecção do feminino cio. Chegou, inclusivamente, a melindrar-se por eu pôr em causa a fidelidade da sua cara metade. 



Ora, o Raúl, como sujeito complacente que é, sujeitou-se a ouvir falsas explicações e não aviou, logo ali, os dois que lhe ataviaram a testa: vaca grega e bandarilheiro senegalês. Ao que parece, a lésbica, mal viu Raúl, encetou a sequência de lugares-comuns típica nestes casos, como comprovam novelas e filmes:

1) Levantou-se, num salto, e embrulhou-se no lençol, deixando o intumescido membro africano ao léu;
2) Cuspiu um "então não saías mais tarde do trabalho, hoje?";
3) Escarrou um "isto não é o que parece!";
4) Expectorou um "eu amo-te é a ti, e não a ele!".

Perante isto, deparo-me com algumas questões. Vamos, então, por partes, seguindo a ordem das alíneas anteriores:

1) Embrulhou-se no lençol para quê? Estava com frio? Ou tem alguma coisa a esconder? É que tanto um, como outro, já devem ter visto cada milímetro daquele corpo de todos os ângulos possíveis;
2) A sério? A culpa agora é do rapaz, por não ter ficado no escritório a fazer horas extraordinárias não remuneradas? Por acaso não queres que ele te vá comprar um maço de tabaco, enquanto tu acabas o que estavas a fazer, queres?;
3) Então mas o que é que parece? Ao Raúl pareceu que estavas a ajudar o senhor a matar esse bicho negro e grande que ele aí tem, à força de senaitadas. Não me digas que, afinal, estavam a praticar aquela coisa do coito ou lá o que é?;
4) Amas, não amas? Tu amas é, literalmente, o c...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Terça-feira gorda ou terça-feira, gorda?

Hoje fui almoçar fora com dois bons amigos que já não via há algum tempo.  Um deles, o Paulinho, talvez um tanto ou quanto esquecido das minhas fobias, levou consigo uma colega de trabalho cuja massa corporal variava na razão proporcionalmente inversa à sua própria inteligência. E se ela não pesava 120 kg, menos de 119 também não pesava. Era, portanto, citando Gonçalo Waddington, daquelas que "vêem o reflexo da senaita na pocinha de água da sanita".

Ora, gorda e estúpida, uma conjunção de características a que normalmente se associam suores bafientos e reacções despropositadas. Os primeiros, não sei bem como, fui-os suportando herculeamente durante o repasto, já as segundas acabaram por desembocar numa espiral de violência por alturas da sobremesa.

Passo a explicar o que aconteceu:

Estando nós em plena época carnavalesca, o tema veio, forçosamente, à baila. Depois de eu explanar a minha teoria sobre os homens que, por estes dias, se mascaram de matrafonas (ver nota), o meu  outro amigo, de seu nome Raúl, do alto da sua ingenuidade , teve a infelicidade de colocar a seguinte questão, olhando a gorda nos olhos: "Costumas mascarar-te na terça-feira gorda?"  Não coloquei nenhuma vírgula entre terça-feira e gorda, porque o meu amigo não fez a mais pequena pausa entre as duas palavras. Qualquer pessoa com um Q.I. superior a 70 perceberia que não havia qualquer resquício de malícia naquelas palavras e que o Raúl se referia à terça-feira de carnaval, por conseguinte não estava a chamar gorda à gorda. Mas quer tenha sido por ter a mania da perseguição, quer tenha sido por desconhecer o que seja a terça-feira gorda, a baleia espetou tal lamparina no Raúl que, para além do pudim de ovos que este levava à boca, até lhe saltaram os óculos. A avaliar pelo volume da talocha da badocha, aquilo é coisa para ter doído consideravelmente. Não me pude conter perante tamanha afronta e logo de seguida, espetei com o meu doce da casa e com a baba de camelo do Paulo nas fartas bochechas da gorda, prensando-as com genica, até começarem a pingar. Para rematar dei-lhe uma biqueirada na colossal padaria, alheio à possibilidade de ficar com o pé preso naquela miríade de refegos.

A sorte da gorda foi o Paulo ter-se interposto entre nós, pedindo-me que me acalmasse, o que acabou por acontecer, mas não sem antes proferir estas palavras: "Gorda da merda, que mal olhei para ti fiquei mal disposto. Havias de ficar de caganeira três meses para ver se emagrecias!"

Nota:

Apesar do seu tremendo valor sociológico e do reconhecimento que encontrou entre os meus pares, vou tentar resumir, em poucas palavras, a minha tese de mestrado de 418 páginas, cujo tema é "Dos homens que se mascaram de matrafonas no Carnaval": no fundo, são todos paneleiros.