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sábado, 27 de abril de 2013

Transportes (demasiado) públicos

Já há algum tempo que não andava de transportes públicos com a frequência que tenho andado no último par de meses. Não me parece que o porquê dessa mudança de hábitos seja da vossa conta, no entanto, façam as conjecturas que bem entenderem, pois estou-me bem a cagar para isso. Pode, muito bem, ser porque não me apetece contribuir regularmente para o enriquecimento das gasolineiras, ou porque não tenho meios financeiros para contribuir regularmente para o enriquecimento das gasolineiras. Pode, também, sê-lo porque não tenho, sequer, veículo próprio ou carta de condução. Pode, outrossim, dever-se ao facto de até há dois meses atrás eu mais não fazer do que ficar no conforto do lar a coçar este valente par de tomates que é o meu, sobrevivendo às custas da Segurança Social, e agora, acabado o subsidio, ver-me forçado a alancar num restaurante, café ou estabelecimento afim. Ou pode, simplesmente, acontecer porque gosto de me embrenhar entre a comum das gentes, ora tentando escutar diálogos obtusos entre intervenientes menos esclarecidos, ora tentando escutar monólogos oclusos de um ou outro chanfrado, ora tentando observar comportamentos estranhos, manias, tiques nervosos, e perante tudo isso, regozijar-me por, afinal, reparar que não bato tão mal do penico quanto julgava.

Ontem, em plena carruagem do Metro, ditou a sorte madrasta, que se sentasse à minha frente um monhé (a atirar mais para o paquistanês do que para o indiano, mas com similar bedum a caril). Trazia um turbante na tola, que lhe conferia, à vontade, mais meio metro de altura, exibia farfalhuda barba branca, olhos negros e penetrantes, suava em bica, murmurava imperceptivelmente e trazia um saco suspeito dependurado do braço esquerdo. Múltiplos e estridentes alarmes soaram, de imediato, na minha cabeça e saí dali a correr, disparado. Se o paquistanês rebentou com a carruagem, e com quantos iam nela, não sei, ainda não vi nenhum noticiário desde então. Mas sei que eu estou a escrever este texto, todo inteiriço, pois sou muito mais apologista do mais vale prevenir do que remediar, do que do depois de casa roubada, trancas à porta.



Transporte alternativo ao Metro? Autocarro, ora pois. Rapariguita nova, vulgarmente designada por pita, entra na paragem posterior àquela em que entrei e senta-se no lugar defronte àquele em que o meu distinto rabo assentava. Falava, ou antes, gritava ao telemóvel. Do que a interlocutora dizia do outro lado não pude, obviamente, ter certezas, mas a minha companheira de viagem expelia, boca fora, alarvidades desta espécie, entremeadas com um riso particularmente irritante: "Fostes à festa, ontem?"; "Ina, encontrastes o Nélson? Tipo, o gajo é alto pão, né?"; "Há-des me dizer porque é que não me convidastes, sua porca!"; "Iá, fui ao Mac. Almocei alta Big Mac e McFlurry"


Não fosse o elevadíssimo apreço que nutro pelo segundo tomo do Dom Quixote de la Mancha, edição de coleccionador em capa dura, e juro que ela, para além do Big Mac e do McFlurry, tinha almoçado com ele nos cornos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

É Natal, é Natal...

Qual matéria viscosa e escorregadia, de aspecto gelatinoso, o tempo  tem-se-me escapado por entre os dedos, não tenho conseguido agarrá-lo como seria minha intenção primeira. Peço, por isso, imensa desculpa a quem me lê. Infelizmente não tenho a meretriz da vossa vida, que passam o dia sentados, cus colados às cadeiras e mãos coladas aos teclados . Eu trabalho no duro, conforme comprovam as minhas roupas suadas e as minhas mãos calejadas, e escusem-se, por favor, a piadas que associem os calos das minhas mãos a práticas onanistas. Talvez, na mão esquerda, um ou outro advenha daí, mas no cômputo geral advêm da labuta diária.


Eis-nos chegados ao início de Dezembro, e uma vez mais cá temos o Natal à porta, e com ele os pais natais de chocolate; os pais natais que dão colo a putos nos centros comerciais; os pais natais com problemas de identidade, que sobem edifícios armados em homens-aranha (se alguma vez pensaram em assaltar casas aqui têm uma ideia válida). Acredite-se ou não no Pai Natal, o que é certo é que as suas reproduções se deixam ver por aí amiúde. Uns mais balofos, outros menos, nesta época abundam por essa cidade fora que nem monhés no Martim Moniz, local em que se chegam a ver pais natais monhés, substituindo o habitual "Qué Frô?" por um "Qué Pinheiro?", mais adequado à época.




Em breve publicarei aqui um conto de Natal, mas um dos bons, não outra mariquice igual a tantas que para aí andam.