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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Terça-feira gorda ou terça-feira, gorda?

Hoje fui almoçar fora com dois bons amigos que já não via há algum tempo.  Um deles, o Paulinho, talvez um tanto ou quanto esquecido das minhas fobias, levou consigo uma colega de trabalho cuja massa corporal variava na razão proporcionalmente inversa à sua própria inteligência. E se ela não pesava 120 kg, menos de 119 também não pesava. Era, portanto, citando Gonçalo Waddington, daquelas que "vêem o reflexo da senaita na pocinha de água da sanita".

Ora, gorda e estúpida, uma conjunção de características a que normalmente se associam suores bafientos e reacções despropositadas. Os primeiros, não sei bem como, fui-os suportando herculeamente durante o repasto, já as segundas acabaram por desembocar numa espiral de violência por alturas da sobremesa.

Passo a explicar o que aconteceu:

Estando nós em plena época carnavalesca, o tema veio, forçosamente, à baila. Depois de eu explanar a minha teoria sobre os homens que, por estes dias, se mascaram de matrafonas (ver nota), o meu  outro amigo, de seu nome Raúl, do alto da sua ingenuidade , teve a infelicidade de colocar a seguinte questão, olhando a gorda nos olhos: "Costumas mascarar-te na terça-feira gorda?"  Não coloquei nenhuma vírgula entre terça-feira e gorda, porque o meu amigo não fez a mais pequena pausa entre as duas palavras. Qualquer pessoa com um Q.I. superior a 70 perceberia que não havia qualquer resquício de malícia naquelas palavras e que o Raúl se referia à terça-feira de carnaval, por conseguinte não estava a chamar gorda à gorda. Mas quer tenha sido por ter a mania da perseguição, quer tenha sido por desconhecer o que seja a terça-feira gorda, a baleia espetou tal lamparina no Raúl que, para além do pudim de ovos que este levava à boca, até lhe saltaram os óculos. A avaliar pelo volume da talocha da badocha, aquilo é coisa para ter doído consideravelmente. Não me pude conter perante tamanha afronta e logo de seguida, espetei com o meu doce da casa e com a baba de camelo do Paulo nas fartas bochechas da gorda, prensando-as com genica, até começarem a pingar. Para rematar dei-lhe uma biqueirada na colossal padaria, alheio à possibilidade de ficar com o pé preso naquela miríade de refegos.

A sorte da gorda foi o Paulo ter-se interposto entre nós, pedindo-me que me acalmasse, o que acabou por acontecer, mas não sem antes proferir estas palavras: "Gorda da merda, que mal olhei para ti fiquei mal disposto. Havias de ficar de caganeira três meses para ver se emagrecias!"

Nota:

Apesar do seu tremendo valor sociológico e do reconhecimento que encontrou entre os meus pares, vou tentar resumir, em poucas palavras, a minha tese de mestrado de 418 páginas, cujo tema é "Dos homens que se mascaram de matrafonas no Carnaval": no fundo, são todos paneleiros.






segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Bom Natal, mas é o...

Julgavam que eu já tinha quinado, não? Enganam-se, ainda estou vivo e recomendo-me. Quem quinou foi um tio meu que vivia lá para o interior, e eu vi-me forçado a deslocar-me até lá para velório, funeral e testamento, onde, curiosamente, constava o meu nome. O velho não tinha filhos, pelo que achou por bem que eu ficasse com grande parte do seu património, ou seja, com o seu canivete suiço e uma boina, daquelas à velho, que, pelo cheiro a bedum, já não devia ser lavada  desde a assinatura do tratado de Tordesilhas.

Ao voltar para casa, pisei a poia que um qualquer canídeo deixou mesmo à minha porta. Contra o bicho não tenho nada, porque os animais agem de acordo com as suas necessidades primárias, sem passar grande cartão a indicações cerebrais. Já contra o dono tenho aqui o canivete suíço com que limpei a merda do meu sapato, e com que lhe limparei o sarampo, se preciso for.


Portanto: bom Natal mas é o raio que vos parta! E isto é para não escrever "bom Natal mas é o caralho que vos foda bem no meio dos vossos cus!",  porque há senhoras que lêem isto, e um ou outro maricas também. Num e noutro caso, tratam-se de pessoas de extrema sensibilidade a quem este  tipo de linguajar pode ofender, muito embora sejam as que mais se  sujeitam  a albergar o mangalho entre as bochechas do pandeiro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Conto de Natal

Corria o ano 1994 da Graça do Senhor, o frio de Dezembro fazia-se sentir nos ossos e articulações dos mais  velhos, tanto nos dos mais lúcidos como nos dos senis, que nisto da osteopatia provecta o estado mental não entra nas contas. O mesmo frio relembrava, também, antigas mazelas em joelhos e tornozelos mais novos, que nem por isso deixavam de ter a sua história.

Vinte dias tinham passado desde o início do mês, faltando, portanto, quatro para que a véspera de Natal chegasse. Evocando reminiscências do número da besta, o ponteiro das horas do relógio da cozinha estava junto ao 6, o dos minutos junto ao 6 se quedava, e o dos segundos pelo 6 passava, no exacto momento em que:

- Ali para os lados das Amoreiras, uma abelha picou a bochecha a um operário da construção civil. Surpreendido pela picada, o operário desequilibrou-se e caiu do andaime, desde o quarto andar do edifício para cuja reparação exterior contribuía;

- Na Avenida Almirante Reis, num autocarro repleto de passageiros, esperando que o semáforo passasse a verde, Carlos apalpou o rabo a um homem de cabelo comprido julgando tratar-se de uma mulher. Levou um soco que lhe apanhou irmãmente o lábio superior e o nariz, partindo-se a cana deste último;

- Numa moradia em Alvalade, naquela em que o relógio da cozinha marcava as 18h30m30s, um gordo qualquer, vestido de Pai Natal, ficou entalado na chaminé ao tentar descer pela mesma, num último ensaio para surpreender e entreter a sua prole, igualmente balofa,  na noite de 24 para 25.

Para além de terem ocorrido exactamente ao mesmo tempo, seria de esperar que houvesse mais algum ponto unificador entre estes três acontecimentos. Mas não: o trolha quinou; o acidental maricas passou o Natal com uma tala na penca, sem nunca ter explicado à família o que motivara aquilo; e o gordo teve de esperar três horas até que os bombeiros chegassem e lhe escavacassem a chaminé toda para o tirarem de lá.

De toda a história se extrai, normalmente, uma moral, porém desta extraem-se três: não trabalhes nas obras, não apalpes rabos em autocarros e não comas que nem um alarve, se queres descer chaminés no Natal.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Reformulação de adágios

Não, quando escrevi adágios não me referia aos iogurtes, façam lá uma pausa nisso de serem parvos, e até sugiro que deixem de o ser definitivamente, num futuro mais próximo do que longínquo. Mas agora que falo em iogurtes vou ali virar um e já volto.

Já fui, já voltei, e aí está uma das vantagens da palavra escrita: não possuís forma de saber se me demorei por cinco ou dez minutos, ou se deixei o texto em suspenso por um dia ou dois e nem cheguei a comer o iogurte; não sabeis se efectivamente fui comê-lo, se fui defecar (cagar, para os mais brutos), ou se fui decepar o meu periquito com uma faca de mato, porque me andava a esfrangalhar os nervos com chilreios madrugadores, o sacana do bicho. Não tendes modo de saber se lhe deixei a tola separada do resto do corpo, num jorrar de sangue que faria o Tarantino roer-se de inveja.


Mas fui mesmo comer o iogurte, descansai! O sangue que me cobre as mãos, é de uma ferida por sarar que aqui tenho na palma de uma delas e o penso soltou-se ao matraquear as teclas.

Centremo-nos, então, no que viemos aqui fazer. É sobejamente conhecida a fertilidade da língua portuguesa em ditos populares, provérbios e adágios, muitos deles certeiros, outros com menos pontaria. O que aqui trago é dos primeiros, mas eu torná-lo-ei ainda mais certeiro. "Em terra de cegos, quem tem olho é rei!", diz a sabedoria popular e o Vale e Azevedo. Eu reformulo: "Enterra no cego, que tem olho do cu e é gay!". No parágrafo imediatamente subsequente, começo a história que me leva a tal reformulação.


Tenho um amigo (ou melhor, tinha um amigo, porque deixou de o ser, e mais abaixo ireis perceber porquê) que em tempos se meteu numa confusão com um cigano, na feira de Carcavelos. Dizia o     zíngaro que ele olhava com demasiada cobiça o decote da sua Alzira. O Manel (o tal amigo que   deixou de o ser) ripostava que não, que era mentira, mas dizia-o sem tirar os olhos do mamaçal cigano. Às tantas o ciumento salta para cima da banca de roupa contrafeita com um canivete em riste e grita "Ai, que te vazo os dois olhos já aqui!". E vazou. Depois de demoradas cirurgias oculares, foi impossível aos médicos recuperar a visão do, até então, meu amigo.

Até aqui tudo bem, no que concerne à amizade que nos unia. Cheguei, inclusive, a ir ao hospital dar-lhe a sopa aguada durante a fase de recobro. Acontece que, ao saber do verdadeiro motivo da rixa com o cigano, a esposa do Manel deixou-o. O cunhado, que, à época, vivia com eles, mais por rabetice do que por piedade, fez questão de ficar e auxiliar o Manel naquilo que este entendesse por necessário. Certo dia,  pouco tempo depois de ter ficado cego, numa fase em que ainda precisava de bastante apoio para as tarefas quotidianas, Manel preparava-se para um banho, sendo para isso ajudado pelo irmão da sua ex-mulher. Num momento em que se inclinou para tirar as meias, o cunhado, mais possante, agarrou-o com força e afiambrou-lhe no befe. O meu antigo amigo resistiu inicialmente, mas acabou por deixar-se arrastar para as malhas da panasquice. Hoje em dia atraca de proa que nem gente grande, pega de empurrão como se não houvesse amanhã, a fruta que mais come é a banana e não a come às rodelas, nem à dentada.

É triste mas é verdade, em poucos dias o Manel ficou sem ver, mas abriram-lhe melhor outro olho. Eis porque afirmo: "Enterra no cego, que tem olho do cu e é gay".