Não, quando escrevi adágios não me referia aos iogurtes, façam lá uma pausa nisso de serem parvos, e até sugiro que deixem de o ser definitivamente, num futuro mais próximo do que longínquo. Mas agora que falo em iogurtes vou ali virar um e já volto.
Já fui, já voltei, e aí está uma das vantagens da palavra escrita: não possuís forma de saber se me demorei por cinco ou dez minutos, ou se deixei o texto em suspenso por um dia ou dois e nem cheguei a comer o iogurte; não sabeis se efectivamente fui comê-lo, se fui defecar (cagar, para os mais brutos), ou se fui decepar o meu periquito com uma faca de mato, porque me andava a esfrangalhar os nervos com chilreios madrugadores, o sacana do bicho. Não tendes modo de saber se lhe deixei a tola separada do resto do corpo, num jorrar de sangue que faria o Tarantino roer-se de inveja.
Mas fui mesmo comer o iogurte, descansai! O sangue que me cobre as mãos, é de uma ferida por sarar que aqui tenho na palma de uma delas e o penso soltou-se ao matraquear as teclas.
Centremo-nos, então, no que viemos aqui fazer. É sobejamente conhecida a fertilidade da língua portuguesa em ditos populares, provérbios e adágios, muitos deles certeiros, outros com menos pontaria. O que aqui trago é dos primeiros, mas eu torná-lo-ei ainda mais certeiro. "Em terra de cegos, quem tem olho é rei!", diz a sabedoria popular e o Vale e Azevedo. Eu reformulo: "Enterra no cego, que tem olho do cu e é gay!". No parágrafo imediatamente subsequente, começo a história que me leva a tal reformulação.
Tenho um amigo (ou melhor, tinha um amigo, porque deixou de o ser, e mais abaixo ireis perceber porquê) que em tempos se meteu numa confusão com um cigano, na feira de Carcavelos. Dizia o zíngaro que ele olhava com demasiada cobiça o decote da sua Alzira. O Manel (o tal amigo que deixou de o ser) ripostava que não, que era mentira, mas dizia-o sem tirar os olhos do mamaçal cigano. Às tantas o ciumento salta para cima da banca de roupa contrafeita com um canivete em riste e grita "Ai, que te vazo os dois olhos já aqui!". E vazou. Depois de demoradas cirurgias oculares, foi impossível aos médicos recuperar a visão do, até então, meu amigo.
Até aqui tudo bem, no que concerne à amizade que nos unia. Cheguei, inclusive, a ir ao hospital dar-lhe a sopa aguada durante a fase de recobro. Acontece que, ao saber do verdadeiro motivo da rixa com o cigano, a esposa do Manel deixou-o. O cunhado, que, à época, vivia com eles, mais por rabetice do que por piedade, fez questão de ficar e auxiliar o Manel naquilo que este entendesse por necessário. Certo dia, pouco tempo depois de ter ficado cego, numa fase em que ainda precisava de bastante apoio para as tarefas quotidianas, Manel preparava-se para um banho, sendo para isso ajudado pelo irmão da sua ex-mulher. Num momento em que se inclinou para tirar as meias, o cunhado, mais possante, agarrou-o com força e afiambrou-lhe no befe. O meu antigo amigo resistiu inicialmente, mas acabou por deixar-se arrastar para as malhas da panasquice. Hoje em dia atraca de proa que nem gente grande, pega de empurrão como se não houvesse amanhã, a fruta que mais come é a banana e não a come às rodelas, nem à dentada.
É triste mas é verdade, em poucos dias o Manel ficou sem ver, mas abriram-lhe melhor outro olho. Eis porque afirmo: "Enterra no cego, que tem olho do cu e é gay".
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