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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Histórias de bairro

Ainda mal o sol raiava, e rasgava as espessas malhas da noite, quando, das entranhas de um magnífico e esplendoroso corpanzil, rompeu altissonante brado. Toda a vizinhança se sobressaltou, e foram, a pouco e pouco, assomando, às janelas, cabeças que se manifestavam, à uma, curiosas e estremunhadas.

Após breves segundos despertadores, oportunos para remover indesejáveis remelas, principiaram as opiniões concernentes à origem do berro:

- Isto é a mais velha do Bento que já lá meteu macho em casa! Que pouca vergonha, não pode apanhar os pais na terra que é isto. Havia de ser minha filha, que eu cá lhas contava! - atirava, de rompante, a D. Deolinda.

- Não, não! - corrigia, prontamente, a D. Carlota - Isto é voz de moço, e moço de juízo toldado. Deve ser o filho da Leonor, benza-o Deus. Coitada, que cruz a dela. Raios partam o marido que não lhe bastava ter fugido com outra, ainda lhe havia de deixar um filho manglóide por criar.

- Quer-me parecer que estão ambas enganadas, comadres. - atalhou a D. Alzira - Isto não foi senão o carteiro com alguma carta registada e, como que não lhe atendessem à porta, berrou...

- Ou então foi só o uivo de algum cão, nós é que ainda estamos meio assarapantadas com o acordar assim às pressas, ó vizinhas! - opinou a D. Idalina.

Depois de tudo isto ouvir, saí da soleira da porta em que me encontrava e disse:

- Alto lá, suas pegas! Isto fui só eu que cheguei agora bêbedo e mandei com os cornos num poste. Mas se o Bento está na terra, esperem lá que eu já lhe vou tratar da tosse à filha.

Posto isto, as senhoras chamaram-me ordinário em uníssono e recolheram aos respectivos aposentos num forte estrepitar da madeira e do alumínio das janelas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

I love...

Antes de tudo o mais, uma elucidativa nota prévia: é dia das mentiras mas, no que vos vou contar, garanto não haver o mínimo vislumbre de ficção.

Há coisa de duas ou três horas, passeava eu a minha incomensurável beleza pelas olisiponenses ruas, e cruzei-me  com uma mocinha que em termos de idade não ultrapassaria, garantidamente, os dezoito, dezanove anos. Trajava, a dita, umas calças justas, uma camisola de capuz, uns ténis  de cores estonteantes e tinha o cabelo entrançado, à laia de uma Lara Croft ou Pipi das Meias Altas. De toda essa indumentária, uma só coisa reteve a minha atenção por mais tempo do que o estritamente necessário nestas circunstâncias e, por incrível que pareça, não foram os ténis multicolores. Estarão, com toda a certeza, familiarizados com t-shirts e camisolas exibindo mensagens do género: "I love NY"; "I love myself"; "I love cerveja"; "I love acids"; "I love chocolate" e por aí fora, sendo que, em praticamente todas elas a partícula "love" se substitui por um coração bem avermelhado. Não raramente, como, aliás, poderão verificar pelos exemplos que acima dei, ocorre misturarem-se,  nestas peças de vestuário, a linguagem simbólica do coração, o idioma de Shakespeare e a veneranda língua de Camões.


Ora, como já perceberam, caso não sejam estúpidos, aquilo que mais me estupefez naquele recontro, foi a mensagem que a camisola de capuz ostentava. Infelizmente, não consegui perceber bem a primeira letra da palavra que vinha a seguir ao coração, dada a rapidez com que se deu o meu cruzamento com a rapariga e dado que, do ângulo de visão que me calhou em sorte, a letra se encontrava parcialmente encoberta pelo considerável volume mamário da rapariga. Ainda assim, percebi tratar-se de um B ou de um R. Quanto às restantes letras dessa palavra, não me assaltaram quaisquer dúvidas: eram, claramente, duas vogais escoltadas por duas consoantes formando, em conjunto, um inconclusivo "icos". Mas, se lhes juntarmos o tal B ou o tal R, dissipa-se a névoa e ficamos com Bicos ou Ricos, respectivamente. Em suma, das duas uma: ou a miúda adora bicos, ou a miúda adora ricos. Qualquer uma das hipóteses é, para mim, desconcertante, mas, caso fosse a primeira, teria todo o gosto em dar vazão ao amor da moça. Já quanto à segunda hipótese, nada posso fazer, pois não passo de um mero assalariado sem perspectivas de enriquecimento, seja ele lícito ou, o tão português ilícito.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ramiro

Em tempos pretéritos, viveu, no local que é hoje conhecido como Arroteia, um homem formidável, tanto em dimensão corporal, como em pobreza de intelecto. Em altura, cinco pipas de moscatel empilhadas não lhe fariam justiça; em largura, três tonéis de tinto acoplados não se lhe comparariam, em inteligência toda e qualquer rocha, calhau ou pedregulho lhe faria frente.

À sua repugnante fisionomia somava-se ainda uma estranha disfunção que fazia com que Ramiro, assim se chamava o infeliz, vertesse merda pelos olhos e lágrimas pelo cu. Não sei através de que processos gastroenterológicos ou lacrimais isso acontecia, nunca ninguém o soube. Nem mesmo tendo sido consultados os mais virtuosos doutores da medicina e da igreja, se conseguiu chegar a uma conclusão. Os primeiros ficavam boquiabertos e abismados, sem qualquer explicação cabal para que tal acontecesse, uma vez que não detectavam qualquer distopia interna, à excepção da reduzida dimensão encefálica; os segundos não ficavam menos estupefactos, mas exclamavam que se os desígnios do Senhor haviam ditado que assim fosse, não poderiam senão resignar-se e orar para que o supra-mencionado Senhor minimizasse o sofrimento de Ramiro, e não deixasse tresmalhar aquela ovelha do seu infinito rebanho.

A todos os exames e observações a que era sujeito, Ramiro submetia-se de impávido e sereno modo. Para sorte dos narizes dos seus conterrâneos, poucas eram as vezes em que se entristecia ou se deixava abater pelo infortúnio. Muito pelo contrário, como é, aliás, apanágio dos tolos, Ramiro babava-se e ria-se em demasia e, no mais das vezes, a despropósito. Mas à noite, na solidão da sua alcova, quer fosse por medo do escuro, quer fosse por lamentar a sua desdita, o disforme indivíduo chorava e cheirava muito a merda.   

Faleceu ainda novo, quando aos 35 anos de idade o acometeu uma atroz diarreia que o fez chorar durante dias, o que, por sua vez, fez chorar toda a vizinhança.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O amor é lindo

Recostem-se nas cadeiras em que vossos traseiros estão sentados, aconcheguem-se no conforto das mantas   que vos cobrem, libertem as vossas mentes de toda a espécie de tormentas que as apoquentem, relaxem e preparem-se, pois estão prestes a conhecer a mais bonita das histórias de amor com que alguma vez se depararam ou irão deparar, nem que superem o Manoel de Oliveira no que respeita à compilação de anos de vida. Desde a literatura ao cinema, e às vezes em ambas as artes, foram vários os casais que, ao longo dos tempos, se foram tornando célebres: Romeu e Julieta, Scarlett O'Hara e Rhett Butler, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, Baltasar e Blimunda, Jack e Rose, mesmo até os incestuosos Carlos da Maia e Maria Eduarda e os cowboys panascas de Brockeback Mountain. Pois esqueçam-nos a todos, sobretudo os que referi em último lugar. Retenham antes estes dois nomes: Alfredo e Guilhermina. Estes sim, simbolizam o amor puro e inquebrantável.

Reza, então, assim a história:

Nos meandros de um típico bairro lisboeta, caída que estava a fria noite, era pelas tascas que se aglomeravam as conversas. Num desses estabelecimentos ocorria esta troca de argumentos:

- É melhor? É melhor mas é a merda! Uma arrochada no meio desses cornos era pouco!! Metem estes gajos, que nunca sequer entraram num balneário, a comentar futebol, depois dá nisto: um gajo tem de ouvir estas baboseiras. - gritava o  Alfredo para a televisão, vendo um daqueles domingueiros programas em que se fazem rescaldos das jornadas futebolísticas.

- Eh pá,  ó Alfredo, tem lá calma!! - tentava o Jaime pôr um pouco de água na fervura, lá por detrás do balcão - Isto se gostássemos todos do mesmo nem o andar neste mundo tinha interesse. E mais, com essa gritaria espantas-me a clientela toda, para além de te fazer mal ao coração, pá!

- Jaime, eu sou teu amigo e sabes bem que te tenho em boa conta, mas vai também tu à merda mais as tuas falinhas mansas! Onde é que, na puta da vida, o Tozé é mais jogador que o Canholas? Nunca! Este gajo merece é um estaladão bem assente no focinho. - e aqui já era notório o furioso rubor nas faces Alfredinas.

- Alfredo, continuas nesse timbre e com essa ordinarice toda a sair-te da boca, e vou ter de pôr-te lá fora! - ripostava o Jaime, já pegando num dissuasor de bandidos, vulgo barrote, que guardava sempre junto à arca frigorífica.

- Ó pá, pões lá fora mas é o...

A frase ficou em suspenso não por ser o Alfredo parco em grosserias, como aliás já reparámos, nem por sentir eu pejo em escrever aqui "caralho" porque, ao fim e ao cabo, é uma palavra como outra qualquer e não utilizá-la seria uma espécie de discriminação linguística, para além de ser uma fuga à verdade, pois era exactamente a palavra que o Alfredo ia dizer naquele momento, sei-o eu bem, enquanto narrador omnisciente. A frase ficou em suspenso porque naquele preciso instante entrou, na Tasca do Jaime, uma senhora, facto que por si só seria de espantar, ainda para mais aquele tipo de senhora. Vestia uma saia justa, um pouco acima do joelho, deixando apenas uma sugestão de volúpia não concretizada, e uma blusa ligeiramente desabotoada, nada como o que por ali era costume ver-se.

De olhar cúpido, Alfredo levantou-se com estrondo, arrastando a cadeira. Sem retirar o palito do canto da boca, cofiou o frondoso bigode e encaminhou seus passos na direcção da já referida senhora. Uma vez bem junto dela, pegou-lhe no braço direito e, subitamente acometido pelos deuses da loquacidade, disse-lhe ao ouvido:

- Jamais, em toda a minha vida, meus olhos haviam visto mulher de tal jaez. Não a vejo a si despida, mas vê-me a mim, a senhora, completamente nu. Nu de tudo aquilo que outrora fui, despojado de todas as imperfeições da alma que alguma vez afligiram a minha dignidade e compostura. Aqui estou, completamente a descoberto de amores antigos, destapado da lascívia que noutros femininos braços experienciei . Tudo isto porque, num relance, a vi e a si fiquei agrilhoado, temo que para todo o sempre.

Atordoada, com o palavreado e talvez com o bafo a vinho, Guilhermina, pois era esse o seu nome, respondeu:

- O quê, pá? 

Retornado do transe em que se encontrava e, recuperando os sentidos, Alfredo volveu rapidamente:

- Vou-te esgaçar todinha!! - e ainda o inha ecoava pela tasca, já Alfredo saía porta fora com Guilhermina ao colo para a primeira de muitas e formidáveis foeiradas.