Recostem-se nas cadeiras em que vossos traseiros estão sentados, aconcheguem-se no conforto das mantas que vos cobrem, libertem as vossas mentes de toda a espécie de tormentas que as apoquentem, relaxem e preparem-se, pois estão prestes a conhecer a mais bonita das histórias de amor com que alguma vez se depararam ou irão deparar, nem que superem o Manoel de Oliveira no que respeita à compilação de anos de vida. Desde a literatura ao cinema, e às vezes em ambas as artes, foram vários os casais que, ao longo dos tempos, se foram tornando célebres: Romeu e Julieta, Scarlett O'Hara e Rhett Butler, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, Baltasar e Blimunda, Jack e Rose, mesmo até os incestuosos Carlos da Maia e Maria Eduarda e os cowboys panascas de Brockeback Mountain. Pois esqueçam-nos a todos, sobretudo os que referi em último lugar. Retenham antes estes dois nomes: Alfredo e Guilhermina. Estes sim, simbolizam o amor puro e inquebrantável.
Nos meandros de um típico bairro lisboeta, caída que estava a fria noite, era pelas tascas que se aglomeravam as conversas. Num desses estabelecimentos ocorria esta troca de argumentos:
- É melhor? É melhor mas é a merda! Uma arrochada no meio desses cornos era pouco!! Metem estes gajos, que nunca sequer entraram num balneário, a comentar futebol, depois dá nisto: um gajo tem de ouvir estas baboseiras. - gritava o Alfredo para a televisão, vendo um daqueles domingueiros programas em que se fazem rescaldos das jornadas futebolísticas.
- Eh pá, ó Alfredo, tem lá calma!! - tentava o Jaime pôr um pouco de água na fervura, lá por detrás do balcão - Isto se gostássemos todos do mesmo nem o andar neste mundo tinha interesse. E mais, com essa gritaria espantas-me a clientela toda, para além de te fazer mal ao coração, pá!
- Jaime, eu sou teu amigo e sabes bem que te tenho em boa conta, mas vai também tu à merda mais as tuas falinhas mansas! Onde é que, na puta da vida, o Tozé é mais jogador que o Canholas? Nunca! Este gajo merece é um estaladão bem assente no focinho. - e aqui já era notório o furioso rubor nas faces Alfredinas.
- Alfredo, continuas nesse timbre e com essa ordinarice toda a sair-te da boca, e vou ter de pôr-te lá fora! - ripostava o Jaime, já pegando num dissuasor de bandidos, vulgo barrote, que guardava sempre junto à arca frigorífica.
A frase ficou em suspenso não por ser o Alfredo parco em grosserias, como aliás já reparámos, nem por sentir eu pejo em escrever aqui "caralho" porque, ao fim e ao cabo, é uma palavra como outra qualquer e não utilizá-la seria uma espécie de discriminação linguística, para além de ser uma fuga à verdade, pois era exactamente a palavra que o Alfredo ia dizer naquele momento, sei-o eu bem, enquanto narrador omnisciente. A frase ficou em suspenso porque naquele preciso instante entrou, na Tasca do Jaime, uma senhora, facto que por si só seria de espantar, ainda para mais aquele tipo de senhora. Vestia uma saia justa, um pouco acima do joelho, deixando apenas uma sugestão de volúpia não concretizada, e uma blusa ligeiramente desabotoada, nada como o que por ali era costume ver-se.
De olhar cúpido, Alfredo levantou-se com estrondo, arrastando a cadeira. Sem retirar o palito do canto da boca, cofiou o frondoso bigode e encaminhou seus passos na direcção da já referida senhora. Uma vez bem junto dela, pegou-lhe no braço direito e, subitamente acometido pelos deuses da loquacidade, disse-lhe ao ouvido:
- Jamais, em toda a minha vida, meus olhos haviam visto mulher de tal jaez. Não a vejo a si despida, mas vê-me a mim, a senhora, completamente nu. Nu de tudo aquilo que outrora fui, despojado de todas as imperfeições da alma que alguma vez afligiram a minha dignidade e compostura. Aqui estou, completamente a descoberto de amores antigos, destapado da lascívia que noutros femininos braços experienciei . Tudo isto porque, num relance, a vi e a si fiquei agrilhoado, temo que para todo o sempre.
Atordoada, com o palavreado e talvez com o bafo a vinho, Guilhermina, pois era esse o seu nome, respondeu:
- O quê, pá?
Retornado do transe em que se encontrava e, recuperando os sentidos, Alfredo volveu rapidamente:
- Vou-te esgaçar todinha!! - e ainda o inha ecoava pela tasca, já Alfredo saía porta fora com Guilhermina ao colo para a primeira de muitas e formidáveis foeiradas.
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