quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Conto de Natal

Corria o ano 1994 da Graça do Senhor, o frio de Dezembro fazia-se sentir nos ossos e articulações dos mais  velhos, tanto nos dos mais lúcidos como nos dos senis, que nisto da osteopatia provecta o estado mental não entra nas contas. O mesmo frio relembrava, também, antigas mazelas em joelhos e tornozelos mais novos, que nem por isso deixavam de ter a sua história.

Vinte dias tinham passado desde o início do mês, faltando, portanto, quatro para que a véspera de Natal chegasse. Evocando reminiscências do número da besta, o ponteiro das horas do relógio da cozinha estava junto ao 6, o dos minutos junto ao 6 se quedava, e o dos segundos pelo 6 passava, no exacto momento em que:

- Ali para os lados das Amoreiras, uma abelha picou a bochecha a um operário da construção civil. Surpreendido pela picada, o operário desequilibrou-se e caiu do andaime, desde o quarto andar do edifício para cuja reparação exterior contribuía;

- Na Avenida Almirante Reis, num autocarro repleto de passageiros, esperando que o semáforo passasse a verde, Carlos apalpou o rabo a um homem de cabelo comprido julgando tratar-se de uma mulher. Levou um soco que lhe apanhou irmãmente o lábio superior e o nariz, partindo-se a cana deste último;

- Numa moradia em Alvalade, naquela em que o relógio da cozinha marcava as 18h30m30s, um gordo qualquer, vestido de Pai Natal, ficou entalado na chaminé ao tentar descer pela mesma, num último ensaio para surpreender e entreter a sua prole, igualmente balofa,  na noite de 24 para 25.

Para além de terem ocorrido exactamente ao mesmo tempo, seria de esperar que houvesse mais algum ponto unificador entre estes três acontecimentos. Mas não: o trolha quinou; o acidental maricas passou o Natal com uma tala na penca, sem nunca ter explicado à família o que motivara aquilo; e o gordo teve de esperar três horas até que os bombeiros chegassem e lhe escavacassem a chaminé toda para o tirarem de lá.

De toda a história se extrai, normalmente, uma moral, porém desta extraem-se três: não trabalhes nas obras, não apalpes rabos em autocarros e não comas que nem um alarve, se queres descer chaminés no Natal.

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