Quanto a vós não sei, mas eu consigo destrinçar 3 categorias nos episódios que vão povoando os meus dias: aqueles que não interessam a ninguém (a maior parte deles); aqueles que merecem ser contados (cerca de um quarto); e aqueles que têm, mesmo, de ser contados (um ou outro).
É nesta última secção que se vem encaixar o que hoje me aconteceu por volta das 10h34m35s . Não estranhem a precisão horária, mais abaixo irão compreendê-la e quiçá admirá-la. Ora, identificado que está o tempo desta breve narrativa, urge dar-vos conta do espaço, a saber: um elevador de um moderno e sumptuoso edifício lisboeta, localizado no Campus da Justiça, ao Parque das Nações. Não que isso seja da vossa conta ou que me rale com aquilo que vocês pensam, mas antes que enveredem pelo sinuoso caminho dos juízos de valor, não me encontrava no referido local como réu de um qualquer processo criminal, mas sim enquanto testemunha de um atropelamento que ocorreu há uns anos e ao qual tive a infelicidade de assistir.
Tentando resumir esse atropelamento em poucas palavras, pois não foi isso que aqui me trouxe, atravessava eu a estrada embrenhado em meus pertinentes pensamentos, quando um velho, que atravessava na direcção oposta à minha, levou com um Peugeot grená em cima, a uns escassos 4 metros de mim. O motorista pôs-se imediatamente em fuga, mas eu, feito parvo, topei-lhe a matrícula e anunciei-o a plenos pulmões, de tal modo que toda a gente num raio de 2 km me ouviu. Logo de seguida, como que a castigar a minha parvoíce, a bengala do velho acertou-me em cheio na cabeça. Aqui reside a supra-mencionada infelicidade, porque para o facto do velho ter levado uma pazada e ter partido duas pernas e um braço, cagava eu de alto. Ter eu levado com a bengala dele nos cornos e agora ter de andar a caminho do tribunal é que me arreganha os nervos.
Regressando, porém, à manhã de hoje e ao elevador, entrei no 5º piso, vinha o dito num dos seus dois únicos trajectos possíveis, e que neste caso era o descendente. No seu interior estavam três pessoas: um gordo bem vestido, um marreco mal vestido, e uma gaja a atirar para feia. Quando entrei deviam ser 10h34m25s, cumprimentei todos com um aprazível "bom dia" acompanhado por um ligeiro inclinar da minha tola recém rapada e bem torneada. Durante os 10 segundos que se seguiram observei e analisei os meus companheiros de viagem de forma célere mas eficaz, pois a isso obrigava o meu plano. Algures entre o 3º e o 2º piso, precisamente às 10h34m35s, um de nós peidei-me. Mas suspendamos aqui o relato e voltemos ligeiramente atrás.
Pouco antes de entrar no elevador senti o meu estômago borbulhar e contrair-se, num claro prenúncio do que aí vinha. Cagasse-me eu logo ali e denunciar-me-ia mal entrasse, porque entrar eu e cheirar a couves podres ex aequo seria demasiado óbvio. Digamos que não seria necessário chamar o Sherlock Holmes para encontrar o autor de tão estupenda bufa. De modo que sustive a respiração, sustive a balsemina, saquei do meu telemóvel e entrei no elevador.
Aqueles dez segundos que referi acima, permitiram-me encontrar um bode expiatório para o meu silencioso gás, e silencioso foi porque enquanto uns aprendem a adestrar animais, eu aprendi a adestrar os meus peidos desde tenra idade. Eis o que me passou pela cabeça nessas 10 unidades de tempo imediatamente inferiores ao minuto: a posição do marreco é propícia ao soltar de purrotes; já o gordo tem mais gases para soltar do que o comum dos mortais; em contrapartida a gaja, por norma, não se caga em público, mesmo a feia, que tem tendência a enervar-se por se saber feia, e é sabido que as crises nervosas se manifestam bastas vezes pelo cu, ora em abundantes diarreias, ora em arraiais de flatulência. Portanto a gaja está fora da contenda. Agora, entre o gordo e o marreco vou culpar o... e pimba, não deu para aguentar mais, estava eu naquela indecisão entre culpar o badocha ou o corcunda e vi-me obrigado a deixar o flato sair de pantufas. De imediato olhei para o relógio e registei no bloco de notas do meu telemóvel a hora, de modo a poder manter um registo actualizado de todos os meus peidos, o que me permite conhecer melhor o funcionamento do meu organismo.
O cheiro começou a fazer-se sentir, e numa altura em que já todos começavam a contrair as narinas, para apurar o olfacto, carreguei no botão para sair no 1º piso. Ao fazê-lo acenei negativamente com a cabeça olhando acusativa e intermitentemente para o Obélix e para o Quasimodo, que também já se entreolhavam. Saí, então, no 1º andar e desci rapidamente pelas escadas até ao rés-do-chão. Uma vez aí chegado, olhei em frente, e vi a feiosa sair do elevador toda assarapantada, enquanto lá dentro o gordo afiambrava bananos de meia-noite no marreco. Coloquei os óculos de sol e saí à rua, deixando a manhã beijar-me o rosto.


