segunda-feira, 8 de abril de 2013

EQM

Muitos dos poucos leitores que aqui vêm com alguma regularidade têm-me apontado o dedo, no mais das vezes em mensagens privadas. Talvez não tanto a mim, mas mais ao teor do que escrevo. Dizem eles que para além de escatologia, violência explícita e sexualidade pura e dura, pouco mais se pode extrair do meu solo textual. Fosse eu mais dado a beligerâncias, como fui em primaveras passadas, sugerir-lhes-ia que pegassem nesses dedos que me apontam e os enfiassem bem no meio dos respectivos cagueiros. Porém, estou a tentar  tornar-me numa pessoa melhor e, como tal, tenho tendido a gerir melhor os meus acessos de fúria.

Como prova disso mesmo, nas linhas que se seguem, tentarei manter-me afastado dessas temáticas, ainda que, em minha defesa e em defesa das ideias que pretendo perpassar, me sinta na obrigação de atalhar que, geralmente, onde os leitores vêem escatologia, eu vejo fezes e flatulências eufemísticas, onde detectam violência explícita, eu detecto socos e pontapés metafóricos, onde vislumbram sexualidade pura e dura, eu vislumbro pénis e vaginas metonímicos. Ou, talvez aí, também vislumbre sexualidade pura e dura, não sei ao certo.

Mas adiante porque, como em tempos ficou escrito, o caminho faz-se caminhando. Na próxima quinta-feira, o programa televisivo Linha da Frente, que passa na, por enquanto, televisão pública, abordará o tema das Experiências de Quase Morte (doravante designadas como EQM). Por mais macabro que isto possa parecer, este é um assunto que sempre me fascinou. As pessoas que vivem (ou quase morrem) estas experiências verão,  ipsis verbis, uma luz branca muito intensa? Sentirão, de facto, como que uma separação entre corpo e alma? Verão, efectivamente, os momentos mais marcantes das suas vidas passar-lhes diante dos olhos, numa espécie de flashback acelerado? Há toda uma névoa a encobrir as EQM. Nem médicos, nem cientistas, nem sequer espiritualistas são capazes de dar respostas definitivas e esclarecedoras a este respeito. Tudo o que sabemos é o que a malta que quase patina nos conta quando melhora, mas essa malta pode muito bem não passar de uma cambada de embusteiros. A título de exemplo reparem no actual governo da nossa república, após a recente decisão do TC todos o davam como morto, mas ele estrebuchou veementemente e aí está, de novo, a tentar comer-nos por parvos.

No que me diz respeito, certa vez estive bastante próximo de obter algumas respostas cabais sobre as EQM. Aconteceu quando um grande amigo meu, merecedor da minha total confiança, sofreu um gravíssimo acidente de viação. Os médicos já o davam como clinicamente morto, mas ele voltou à vida e ao pleno uso das suas capacidades cognitivas, depois de ter estado nesse processo límbico. Ao saber disso, corri de imediato até ao Santa Maria na expectativa de saber da boca dele aquilo que havia experienciado durante a sua EQM, e ele faz-me uma das piores desfeitas de que tenho memória, morrendo-me ali, perene e definitivamente, sem sequer me dizer uma palavra. Hoje já consigo perdoá-lo, e como dizem as beatas, que Deus o tenha em paz e descanso, mas na altura fiquei tremendamente sentido com aquilo, saí dali disparado sem dar as minhas condolências à família, e nem sequer pus os pés no velório ou funeral. 

Estão contentes agora, os mais pudicos? Nestes dois últimos parágrafos mantive-me fiel ao que me propus: não há escatologia (ou melhor, até há, mas na outra acepção do termo que não a dos excrementos), não há violência (pelo menos explícita) e não há o mínimo vestígio de sexualidade (mas só aqui no texto, porque ali nos meus lençóis já não garanto que amen).

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