Li algures que "tudo é poesia". Não sei se num qualquer muro da minha amada Lisboa durante um dos meus passeios solitários por alamedas e ruelas; não sei se num qualquer livro da minha amada biblioteca; não sei se num qualquer jornal da minha amada casa-de-banho enquanto sentado fazia o que tinha a fazer. Sei que li e não concordei. E agora ao escrever que não concordei recordo-me perfeitamente que foi mesmo na casa-de-banho, pois disse para comigo: "Olha que bela merda" e entre peidos, ri-me do duplo sentido da frase que acabava de magicar.
Não considero, portanto, o que abaixo vem, como composição poética. A tanto não chega o meu talento. Pretendo apenas contar um episódio de vida de um grande amigo, que remonta aos tempos da minha puberdade. Versejo porque ao versejar trago à narrativa outra fluidez, outra musicalidade. Imaginem uma aldeia nos arrabaldes de Lisboa, imaginem montes e vales a cercá-la, imaginem a ruralidade típica deste espaço geográfico. Já está? Então sigam:
A triste e desditosa história de Zé Albano
Hesitou durante um ano,
mas enfim ganhou coragem.
De seu nome Zé Albano,
nascido junto à barragem.
Eis que sobe ao monte e grita:
- "Ó Rita, estás tão bonita!"
- "Cala-te, meu paspalho!" -
é a resposta que obtém -
"Vai mas é para o caralho,
p´rá puta da tua mãe!"
Zé desfaz-se num retalho,
e chora como ninguém.
Entre uivos de dor e lamentos
avista ao longe uma ovelha,
e em lentos movimentos
vira-se, olhando-a de esguelha.
- "Onde está o teu pastor,
que dele não vejo sinal?
Serás animal desertor
do rebanho do Cunhal?"
Desperto então do torpor
deita da narina um esguicho,
e despeja o seu amor
nos entrefolhos do bicho.
É com a calça arriada
que vê chegar o Cunhal
desatando à cajadada
na sua zona lombal.
Combalido e coxeando,
injúrias aos céus bradando,
da pastoril fúria se afasta.
Senta-se num cepo e medita,
maldiz a vida madrasta.
Mas clama apesar da desdita:
- "De desgraças já me basta,
a bem ou a mal como a Rita!"
do rebanho do Cunhal?"
Desperto então do torpor
deita da narina um esguicho,
e despeja o seu amor
nos entrefolhos do bicho.
É com a calça arriada
que vê chegar o Cunhal
desatando à cajadada
na sua zona lombal.
Combalido e coxeando,
injúrias aos céus bradando,
da pastoril fúria se afasta.
Senta-se num cepo e medita,
maldiz a vida madrasta.
Mas clama apesar da desdita:
- "De desgraças já me basta,
a bem ou a mal como a Rita!"
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