Achei-me, hoje, com tempo suficiente para um passeio vespertino. Comi, ao almoço, um valente prato de iscas, regado com um bom vinho tinto (se bem que para mim são todos bons. Enólogos e escanções que vão enfiar os taninos e os aromas pelos entrefolhos acima). Um bom vinho tinto, escrevia eu antes dos pertinentes parênteses, ali da região de Palmela e que, com toda a certeza, orgulharia o meu bom amigo Octávio Machado.
Voltando ao passeio, perdido nos meus pensamentos, fui desembocar num conhecido jardim da nossa capital. Sentada num banco, estava uma senhora na casa dos trinta anos. Belas e delicadas feições, um decote onde palpitavam dois apelativos seios, e a acompanhar tudo isto uma vigorosa, porém não excessiva, tranca. Cinco minutos me bastaram para formular uma abordagem infalível, aferir o hálito na palma da mão, e avançar com passo sereno, mas másculo.
Do teor da abordagem não vos darei pormenores, pois o segredo será não só a alma do negócio, mas também do engate. Basta-vos saber que acabei por seguir com a tal senhora para a sua residência, ali próxima. Porém, uma vez aberta a porta, chegou-me ao nariz um cheiro nauseabundo, e consequentemente a mostarda. Rapidamente me dei conta, pelo cheiro da habitação, pelas roupas espalhadas pelo chão, pela ratazana que me pareceu ver cruzar a sala, de que caso ela se começasse a despir eu iria vomitar as iscas, e com elas as batatas (reparem no jogo de palavras entre o que acabei de escrever e o nome do prato: iscas com elas. Sou mesmo bom nesta merda). Adivinhei, num assomo de clarividência de que só as grandes mentes são capazes, que aquilo não iria correr bem. Inventei uma desculpa e fugi dali a correr. No caminho para casa dei comigo a pensar: esta mulher tem tudo para ser perfeita e é uma badalhoca de primeira água; esta gaja é o Nicolás Gaitán das mulheres. No melhor pano cai a nódoa, não haja dúvida.

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