quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Eusébio

Remexendo em gavetas e caixas fui dar com um vasto leque daquilo a que a Dona Ermelinda, minha professora no ensino básico, chamava de composições. Se bem me recordo, eram recorrentes as ocasiões em que ela nos pedia que escrevêssemos algumas linhas subordinadas a um tema da sua predilecção.

Feliz ou infelizmente, não me é possível reproduzir, aqui, as especificidades caligráficas (coisa abominável, essa de obrigar crianças a tais actos de tortura. Aquele "G" e aquele "H" não lembram a ninguém). Porém, vou reproduzir o conteúdo de um desses textos, mantendo-me fiel aos erros ortográficos, de acentuação e de pontuação. Sim, também os cometi. O caminho até à perfeição levou algum tempo a trilhar. Não esconderei, também, algumas falhas de discernimento, próprias em tão tenra idade. De qualquer forma já transparecem, nestas linhas, alguns laivos de apurado raciocínio lógico e, diria até, de uma genialidade latente.


O cão


A gente lá em casa tem um cão. Chama-se Eusébio como o jogador que jogava no Benfica e ganhou os campeonatos aquase todos em que entrou. Não percebo bem porque é que o meu pai pôs esse nome ao bicho, ele é daquela marca francesa com os pelos aos caracois, e a única coisa que tem preta é o focinho adonde o meu pai costuma amandar pimparotes até ele começar a espilrar. Mas de resto é todo branquinho e o Eusébio é preto e chutava a bola com mais força do que eu, mas quando eu for grande também vou chutar com força como ele, só que vou ser branco ou então cigano, porque o meu pai às vezes diz que eu sou filho de um cigano, mas na marternidade trocaram-me. O cão devia era de chamar-se Chalana porque é mais parecido com ele e também corre muito.

Uma vez fomos jantar à feira popular com os meus tios e o cão ficou sozinho em casa. Gostei muito      dessa noite porque andei nos carrinhos de choque e na montanha russa. Só não gostei foi de ter vomitado fora o jantar depois da montanha russa. Mas ao fim do cabo acabou por ser giro na mesma, porque os meus primos, os meus tios, o meu pai e a minha irmã riram-se todos muinto e chamaram-me mariquinhas. Só a minha mãe é que não se riu-se e disse que eles eram todos umas bestas quaderadas. Depois fui andar nuns poneis que lá havia a andar às rodas e aquele em que eu estava começou a crescer-lhe a pilinha, até arrastar pelo chão. Riram-se todos outra vez e a minha mãe fez força para não se rir, mas não aguentou e riu-se também. Eu não fiquei chatiado com eles porque eles são da minha família e tenho de gostar deles, mas mais da minha mãe porque ela é que me faz a comida.


Mas esta composição é sobre o cão e não é sobre a feira popular. Quando chegámos a casa o cão tinha feito xixi pela cozinha toda. O meu pai ficou muinto furioso, pegou-lhe no pescoço e esfregou-lhe o focinho no xixi e depois foi a correr para a rua e esfregou-lhe o focinho no chão da rua. Ele diz que é para o cão aprender que tem de fazer xixi na rua e não na cozinha. Mas o cão deve de ser burro porque ontem fez xixi na cozinha outra vez.

Uma vez entrei no quarto da minha irmã mais velha e ela tinha o pipi todo bezuntado com tulicreme de avelâs  e o Eusébio estava a lembê-lo. Ela tinha os olhos todos brancos e estava a respirar como se tivesse a correr, devia de estar cansada. Eu primeiro fiquei priocupado com ela mas depois ela viu-me e ficou toda vermelha como os tomates. Eu fiquei muinto triste e chatiado porque gosto de comer pão com tulicreme e assim já não havia mais. Ela pediu para eu não contar a ninguém e eu disse que não contava se ela me desse dinheiro para comprar um sekeite. Ela disse que não tinha mas que ia arranjar e depois arranjou não sei como. E eu agora é que vi que me esqueci do que prometi à minha irmã e estou a contar à senhora perssora Dona Ermelinda. Mas agora já está feito o mal porque isto está escrito a caneta e a senhora perssora Dona Ermelinda não gosta que a gente risque ou apague com aquelas borrachas azuis porque estragam o papel todo e fica feio. Deviam era de inventar uma tinta branca para a gente usar e depois escrever por cima quando secasse.

O Eusébio nunca mordeu a ninguém menos uma vez que mordeu ao carteiro, mas é bem feito porque o meu pai diz que o carteiro é do Sporting e só lhe trás cartas com contas para pagar e depois o meu pai tem menos dinheiro para me comprar brinquedos e carteiras de cromos.

O Marco é meu vizinho e tem um cão maior do que o meu e que se chama-se Golias e parece um cavalo. O Marco costuma montar-se em cima do Golias mas ao Golias nunca cresceu a pilinha como ao ponei da feira popular. Eu também gostava de montar o Golias, mas o Marco não me deixa. Mas não faz mal porque eu jogo futebol melhor do que ele e ele vai sempre à baliza. E uma vez dei um beijinho na boca da irmã dele e ele nunca deu um beijinho na boca da minha irmã porque ela gosta mais do Eusébio.

Quando chegar a casa vou fazer festas ao Eusébio e vou-lhe dizer-lhe que hoje escrevi uma composição sobre ele. Só que ele não deve perceber porque é estúpido e faz xixi na cozinha em vez de fazer na rua como o meu pai lhe ensinou.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dia dos namorados

Quinta-feira passada, dia 14 de Fevereiro, dia dos namorados. Saio à rua, não chove. O sol vai, paulatinamente, enchendo o meu âmago  de uma alegre felicidade e de uma feliz alegria, passe o duplo pleonasmo, que até vos deixou atordoados. Ao atravessar a estrada, em plena passadeira, reparo que tenho o atacador do meu ténis esquerdo desapertado. Agacho-me e aperto-o. O condutor  de um automóvel branco, que parara para eu passar, acha o meu comportamento inusitado, quiçá abusivo e buzina. Sugiro-lhe que proceda à introdução da buzina na sua própria cavidade anal, e ao fazê-lo mostro-lhe o dedo médio da minha mão esquerda, num magnífico desdobramento de falanges. Numa atitude inteligente, ele não reage, preservando, desse modo, tantos dentes quantos tinha na boca.  Passado esse breve momento de tensão, chego ao outro lado da estrada e digo para comigo: ora aí está um bom dia para ires comprar um ou dois pares de calças, pois todos os que tens estão a rasgar-se, e pela zona em que é, muito provavelmente deve-se ao volume de outro par que possuis desde que vieste a este mundo.

Assim o disse, assim o fiz: linha azul do metropolitano de Lisboa, Baixa-Chiado, Rua Augusta. Compro as calças, vou comer um gelado e começo a reparar nas hordas de gajos com ramos de flores na mão, com embrulhos, até mesmo com balões. Eu até compreendo as flores e os embrulhos, procurando cair nas graças da fêmea, para depois à noite ser mais fácil convencê-la de que o sémen faz bem à pele (neste capítulo, baseado na minha própria experiência deixo-vos um pequeno conselho: se ela for dermatologista, poupem-se ao  esforço).  Mas balões? Que género de gajo dá balões à namorada? Só se for o gajo que anda a varrer a Picolé.

A mim não me apanham em semelhantes figuras. Andar a gastar dinheiro em presentes para namoradas minhas? Já bem chega o dinheiro que lhes pago para elas me satisfazerem sexualmente, a somar ao que pago por quartos de pensões, residenciais e, de quando em quando, hotéis.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Terça-feira gorda ou terça-feira, gorda?

Hoje fui almoçar fora com dois bons amigos que já não via há algum tempo.  Um deles, o Paulinho, talvez um tanto ou quanto esquecido das minhas fobias, levou consigo uma colega de trabalho cuja massa corporal variava na razão proporcionalmente inversa à sua própria inteligência. E se ela não pesava 120 kg, menos de 119 também não pesava. Era, portanto, citando Gonçalo Waddington, daquelas que "vêem o reflexo da senaita na pocinha de água da sanita".

Ora, gorda e estúpida, uma conjunção de características a que normalmente se associam suores bafientos e reacções despropositadas. Os primeiros, não sei bem como, fui-os suportando herculeamente durante o repasto, já as segundas acabaram por desembocar numa espiral de violência por alturas da sobremesa.

Passo a explicar o que aconteceu:

Estando nós em plena época carnavalesca, o tema veio, forçosamente, à baila. Depois de eu explanar a minha teoria sobre os homens que, por estes dias, se mascaram de matrafonas (ver nota), o meu  outro amigo, de seu nome Raúl, do alto da sua ingenuidade , teve a infelicidade de colocar a seguinte questão, olhando a gorda nos olhos: "Costumas mascarar-te na terça-feira gorda?"  Não coloquei nenhuma vírgula entre terça-feira e gorda, porque o meu amigo não fez a mais pequena pausa entre as duas palavras. Qualquer pessoa com um Q.I. superior a 70 perceberia que não havia qualquer resquício de malícia naquelas palavras e que o Raúl se referia à terça-feira de carnaval, por conseguinte não estava a chamar gorda à gorda. Mas quer tenha sido por ter a mania da perseguição, quer tenha sido por desconhecer o que seja a terça-feira gorda, a baleia espetou tal lamparina no Raúl que, para além do pudim de ovos que este levava à boca, até lhe saltaram os óculos. A avaliar pelo volume da talocha da badocha, aquilo é coisa para ter doído consideravelmente. Não me pude conter perante tamanha afronta e logo de seguida, espetei com o meu doce da casa e com a baba de camelo do Paulo nas fartas bochechas da gorda, prensando-as com genica, até começarem a pingar. Para rematar dei-lhe uma biqueirada na colossal padaria, alheio à possibilidade de ficar com o pé preso naquela miríade de refegos.

A sorte da gorda foi o Paulo ter-se interposto entre nós, pedindo-me que me acalmasse, o que acabou por acontecer, mas não sem antes proferir estas palavras: "Gorda da merda, que mal olhei para ti fiquei mal disposto. Havias de ficar de caganeira três meses para ver se emagrecias!"

Nota:

Apesar do seu tremendo valor sociológico e do reconhecimento que encontrou entre os meus pares, vou tentar resumir, em poucas palavras, a minha tese de mestrado de 418 páginas, cujo tema é "Dos homens que se mascaram de matrafonas no Carnaval": no fundo, são todos paneleiros.






terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Bananas

Enquanto ser pensante, de quando em quando, dou comigo perante grandes encruzilhadas mentais no sentido de procurar respostas cabais às grandes questões que, desde sempre, apoquentam o homem em particular, e a mim em geral:  será que há vida noutros planetas?; Será que a teoria da reminiscência da alma, tão cara a Platão, tem algum fundamento?; Deus existe?

Hoje, ao almoço, depois de sacar com a unha do mindinho canhoto uma lasca de bacalhau alojada entre um canino e um pré-molar, vi-me a braços com uma dessas questões. Acabado o prato principal, apeteceu-me comer uma peça de fruta. Olhei para a fruteira e entre maçãs, tangerinas, dióspiros e kiwis, peguei numa banana do Equador que, esclarecendo os mais leigos nisto da bananicultura, é das maiorzinhas que se encontram no mercado português. Antes de a descascar, numa analogia que me parece óbvia, perguntei-me: como é que elas aguentam?



Na remota eventualidade do Sr. Dr. Fernando Ulrich ler estas palavras, comungando desta mesma questão, eu folgo em informá-lo que se elas aguentam, o Sr. Dr. também aguenta (atenção, utilizei aqui o Sr. Dr.  como sinal do respeito que o Sr. Dr. me merece e não de forma irónica. Nem de perto, nem de longe me parece que o Sr. Dr. apresente toda uma pose e  bazófia comuns naqueles que gostam e exigem ser tratados por Sr. Dr. Mas eu sofro de astigmatismo severo e de miopia aguda).