Remexendo em gavetas e caixas fui dar com um vasto leque daquilo a que a Dona Ermelinda, minha professora no ensino básico, chamava de composições. Se bem me recordo, eram recorrentes as ocasiões em que ela nos pedia que escrevêssemos algumas linhas subordinadas a um tema da sua predilecção.
Feliz ou infelizmente, não me é possível reproduzir, aqui, as especificidades caligráficas (coisa abominável, essa de obrigar crianças a tais actos de tortura. Aquele "G" e aquele "H" não lembram a ninguém). Porém, vou reproduzir o conteúdo de um desses textos, mantendo-me fiel aos erros ortográficos, de acentuação e de pontuação. Sim, também os cometi. O caminho até à perfeição levou algum tempo a trilhar. Não esconderei, também, algumas falhas de discernimento, próprias em tão tenra idade. De qualquer forma já transparecem, nestas linhas, alguns laivos de apurado raciocínio lógico e, diria até, de uma genialidade latente.
O cão
A gente lá em casa tem um cão. Chama-se Eusébio como o jogador que jogava no Benfica e ganhou os campeonatos aquase todos em que entrou. Não percebo bem porque é que o meu pai pôs esse nome ao bicho, ele é daquela marca francesa com os pelos aos caracois, e a única coisa que tem preta é o focinho adonde o meu pai costuma amandar pimparotes até ele começar a espilrar. Mas de resto é todo branquinho e o Eusébio é preto e chutava a bola com mais força do que eu, mas quando eu for grande também vou chutar com força como ele, só que vou ser branco ou então cigano, porque o meu pai às vezes diz que eu sou filho de um cigano, mas na marternidade trocaram-me. O cão devia era de chamar-se Chalana porque é mais parecido com ele e também corre muito.
Uma vez fomos jantar à feira popular com os meus tios e o cão ficou sozinho em casa. Gostei muito dessa noite porque andei nos carrinhos de choque e na montanha russa. Só não gostei foi de ter vomitado fora o jantar depois da montanha russa. Mas ao fim do cabo acabou por ser giro na mesma, porque os meus primos, os meus tios, o meu pai e a minha irmã riram-se todos muinto e chamaram-me mariquinhas. Só a minha mãe é que não se riu-se e disse que eles eram todos umas bestas quaderadas. Depois fui andar nuns poneis que lá havia a andar às rodas e aquele em que eu estava começou a crescer-lhe a pilinha, até arrastar pelo chão. Riram-se todos outra vez e a minha mãe fez força para não se rir, mas não aguentou e riu-se também. Eu não fiquei chatiado com eles porque eles são da minha família e tenho de gostar deles, mas mais da minha mãe porque ela é que me faz a comida.
Mas esta composição é sobre o cão e não é sobre a feira popular. Quando chegámos a casa o cão tinha feito xixi pela cozinha toda. O meu pai ficou muinto furioso, pegou-lhe no pescoço e esfregou-lhe o focinho no xixi e depois foi a correr para a rua e esfregou-lhe o focinho no chão da rua. Ele diz que é para o cão aprender que tem de fazer xixi na rua e não na cozinha. Mas o cão deve de ser burro porque ontem fez xixi na cozinha outra vez.
Uma vez entrei no quarto da minha irmã mais velha e ela tinha o pipi todo bezuntado com tulicreme de avelâs e o Eusébio estava a lembê-lo. Ela tinha os olhos todos brancos e estava a respirar como se tivesse a correr, devia de estar cansada. Eu primeiro fiquei priocupado com ela mas depois ela viu-me e ficou toda vermelha como os tomates. Eu fiquei muinto triste e chatiado porque gosto de comer pão com tulicreme e assim já não havia mais. Ela pediu para eu não contar a ninguém e eu disse que não contava se ela me desse dinheiro para comprar um sekeite. Ela disse que não tinha mas que ia arranjar e depois arranjou não sei como. E eu agora é que vi que me esqueci do que prometi à minha irmã e estou a contar à senhora perssora Dona Ermelinda. Mas agora já está feito o mal porque isto está escrito a caneta e a senhora perssora Dona Ermelinda não gosta que a gente risque ou apague com aquelas borrachas azuis porque estragam o papel todo e fica feio. Deviam era de inventar uma tinta branca para a gente usar e depois escrever por cima quando secasse.
O Eusébio nunca mordeu a ninguém menos uma vez que mordeu ao carteiro, mas é bem feito porque o meu pai diz que o carteiro é do Sporting e só lhe trás cartas com contas para pagar e depois o meu pai tem menos dinheiro para me comprar brinquedos e carteiras de cromos.
O Marco é meu vizinho e tem um cão maior do que o meu e que se chama-se Golias e parece um cavalo. O Marco costuma montar-se em cima do Golias mas ao Golias nunca cresceu a pilinha como ao ponei da feira popular. Eu também gostava de montar o Golias, mas o Marco não me deixa. Mas não faz mal porque eu jogo futebol melhor do que ele e ele vai sempre à baliza. E uma vez dei um beijinho na boca da irmã dele e ele nunca deu um beijinho na boca da minha irmã porque ela gosta mais do Eusébio.
Quando chegar a casa vou fazer festas ao Eusébio e vou-lhe dizer-lhe que hoje escrevi uma composição sobre ele. Só que ele não deve perceber porque é estúpido e faz xixi na cozinha em vez de fazer na rua como o meu pai lhe ensinou.

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