sábado, 30 de março de 2013

Birdwatching

Como, decerto, já terão reparado aqueles que habitualmente lêem os meus textos e como, certamente, irão reparar os que os lerem daqui por diante, há assuntos que, pela relevância que têm, merecem a minha particular atenção.

Embora saiba que, nas linhas que se seguem, corro o risco de vos perder, vou dar um passo em frente, tal como o outro que estava à beira do precipício (para os menos esclarecidos nas andanças futebolísticas, o outro que acima refiro foi um proeminente lateral-direito do Futebol Clube do Porto, na década de 80 e nos primórdios da de 90, e que, contrariando todas as noções cromáticas, matemáticas e anatómicas, afirmou também que o seu coração tinha apenas uma cor: azul e branco).

Nos seus tempos livres, o comum dos indivíduos vai às compras com a namorada e fica à porta da Zara a controlar as namoradas dos outros, ou então vai ao cinema, vai à praia, vai praticar desporto, vai a uma sex-shop, vai ver um peep-show, vai ao Parque Eduardo Sétimo atirar balões de água aos maricas. Enfim, há mil e uma actividades corriqueiras a que podemos dedicar-nos para entreter o ócio. Porém, sou da opinião que tudo deve ter os seus limites. Já ouviram falar no Birdwatching? Que merda vem a ser aquela? Que espécie de gente é esta que estando em casa sem nada para fazer, decide agarrar nos binóculos e ir para a mata espreitar os melros, os pintassilgos e os beija-flores? Eu dava-lhes o que beijar, dava-lhes. Se ainda levassem uma pressão de ar e tratassem de arranjar almoço...


No fundo, estes gajos não passam de voyeurs, mas em versão ultra-doentia. Um gajo ir para as dunas com os binóculos, em busca de duas bifas em topless a jogarem às raquetes, e esgalhar uma sarapitola à conta disso, ainda é algo que cabe no meu entendimento. Agora ir espreitar o passaredo na sua intimidade? Deixem lá os bichos sossegados, senão ainda levam com uns balões de água no focinho...






quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia mundial da poesia


Azevia

Sendo da poesia, o dia
e de lanchar, a hora,
vou comer uma azevia,
não mais logo, e sim agora.


"Azevia em pascal data?
Isso não é no Natal?"-
perguntas tu, vil primata,
tosco atrasado mental.


É no Natal, se eu quiser
ou na Páscoa se o achar.
A fome é minha mulher
e terei de a aplacar.


Tratada que está, consolada,
recosto-me, arroto e medito:
e agora uma canzanada,
eles a baterem no pito?

terça-feira, 19 de março de 2013

Praia

Deixo-vos abaixo mais uma das minhas pueris composições:

A praia

Gosto inmenso de ir á praia, mas agora é inverno e não posso ir. Se fosse eu a amandar acabava com o inverno, porque no inverno faz frio e chove, e as pessoas ficam custipadas e andam sempre cheias de ranho nos narizes e na boca e isso é nojento e dá-me vontade de botar fora o almoço.

Só no verão é que vou á praia com o meu pai, com a minha mãe e com a minha irmã. Ás vezes o meu pai leva o Eusébio também, para ele não ficar em casa a fazer xixi na cozinha. O meu pai prende-o ao chapéu de sol e ele ladra muinto e as outras pessoas reclamam, mas o meu pai amanda-as calarem-se e elas calam-se porque ele é grande e mete medo. Ás vezes os meus tios e os meus primos também vão e eu gosto mais assim, porque posso jogar ás raquetas e à bola em contra eles. A minha irmã nunca quer jogar ás raquetas nem à bola, fica sempre na toalha a pintiar-se e a olhar para os nadadores-salvadores sem o meu pai ver, porque se ele ver dá-lhe logo uma lamparina nas trombas.

O meu pai costuma ir sempre para a beira da água e fica com as mãos atrás das costas a ver as pessoas passar. A minha mãe diz que ele tem a mania que é o guarda da praia e ele amanda-a pintiar macacos, só que a minha irmã é que é boa a pintiar. Ela quando fizer dezoito vai ser cabeleireira ou então ladrona, porque o meu pai diz que com as companhias com que ela anda ainda vai é mas é acabar na cadeia.

Uma vez fomos todos á praia do rei e apareceu umas alforrecas que picaram o meu primo Mário na perna. A perna ficou toda vermelha e inchada e ele ficou cheio de comichões e a chorar, que até parecia um bébé. O meu pai disse que o xixi fazia bem áquilo, porque era antisértico, ou lá o que era. Eu como estava aflitinho pedi para ser eu a fazer xixi para cima da perna do Mário e o meu pai e o meu tio deixaram. Como ele estava deitado no chão e a mexer-se muinto, eu atrapalhei-me e também lhe fiz xixi para a cara, mas foi de sem querer, não foi porque ele uma vez me roubou os únicos dois bonecos da playmobil com cabelo e braços, que eu ainda tinha.

Mas o que eu gosto mais na praia é das bolas com berlim, mas não posso comer muintas senão fico gordo como o meu primo Mário, e depois não consigo fugir das alforrecas a tempo. Também gosto daqueles aviões que passam com mensagens e atiram camisolas. O meu pai apanha sempre muintas porque é grande e forte e as outras pessoas só lá vão tentar apanhar também quando ele já está cansado. 




quinta-feira, 14 de março de 2013

Ressurreição


Há muito tempo que não versejo, pelo que, em homenagem a todos os que já sofreram as agruras do amor, aqui ficam estes versos, como que a lembrá-los de que há sempre outro(s) colo(s) onde pousar a(s) cabeça(s):

Ressurreição

Partiste e partiste-me, ó derradeira pétala rosácea
do meu lúgubre jardim!
Varreste-me para debaixo do tapete da entrada
e estou sem saída, agora.
Enfiaste-me num saco preto, asfixiante,
onde morro,
vou morrendo,
todos os dias um pouco.

Porém espera, ressuscito na sombra daquela acácia.
Renasço e volto a mim.
Ali se encontra casta moça, deitada,
e já minha mente a desflora.
A passo lento me acerco, hesitante, 
mas, num jorro,
saio correndo
e nela me engancho, qual louco!


quarta-feira, 13 de março de 2013

Ramiro

Em tempos pretéritos, viveu, no local que é hoje conhecido como Arroteia, um homem formidável, tanto em dimensão corporal, como em pobreza de intelecto. Em altura, cinco pipas de moscatel empilhadas não lhe fariam justiça; em largura, três tonéis de tinto acoplados não se lhe comparariam, em inteligência toda e qualquer rocha, calhau ou pedregulho lhe faria frente.

À sua repugnante fisionomia somava-se ainda uma estranha disfunção que fazia com que Ramiro, assim se chamava o infeliz, vertesse merda pelos olhos e lágrimas pelo cu. Não sei através de que processos gastroenterológicos ou lacrimais isso acontecia, nunca ninguém o soube. Nem mesmo tendo sido consultados os mais virtuosos doutores da medicina e da igreja, se conseguiu chegar a uma conclusão. Os primeiros ficavam boquiabertos e abismados, sem qualquer explicação cabal para que tal acontecesse, uma vez que não detectavam qualquer distopia interna, à excepção da reduzida dimensão encefálica; os segundos não ficavam menos estupefactos, mas exclamavam que se os desígnios do Senhor haviam ditado que assim fosse, não poderiam senão resignar-se e orar para que o supra-mencionado Senhor minimizasse o sofrimento de Ramiro, e não deixasse tresmalhar aquela ovelha do seu infinito rebanho.

A todos os exames e observações a que era sujeito, Ramiro submetia-se de impávido e sereno modo. Para sorte dos narizes dos seus conterrâneos, poucas eram as vezes em que se entristecia ou se deixava abater pelo infortúnio. Muito pelo contrário, como é, aliás, apanágio dos tolos, Ramiro babava-se e ria-se em demasia e, no mais das vezes, a despropósito. Mas à noite, na solidão da sua alcova, quer fosse por medo do escuro, quer fosse por lamentar a sua desdita, o disforme indivíduo chorava e cheirava muito a merda.   

Faleceu ainda novo, quando aos 35 anos de idade o acometeu uma atroz diarreia que o fez chorar durante dias, o que, por sua vez, fez chorar toda a vizinhança.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A vaca grega e o bandarilheiro senegalês

É, demasiadas vezes, volátil, esta vida que vamos levando. Ora nos sentimos abençoados pela graça divina, com uma sucessão de dias imaculados, ora nos vemos confrontados com dores de cabeça da mais diversa ordem, quer sejam elas motivadas pela vileza de outrem, quer pela nossa própria necedade.


Vem esta conversa a propósito de um amigo que tenho e estimo, e que há dias se viu presenteado com uma parelha de chifres pela sua loiríssima e lésbica esposa. É lésbica, não por venerar cricas, como o homem que escreve estas linhas,  mas antes por ser esse o gentílico de quem é natural da grega ilha de Lesbos. Venerasse ela cricas, como o homem que escreve estas linhas (nunca é demais realçá-lo), e o Raúl não a teria apanhado nos preparos em que apanhou.

Situação cliché ou não, o certo é que o Raúl regressou mais cedo a casa, nesse dia de má memória. Entrou no quarto e deu com a Aristocleia a cavalgar o tisnado varapau de um vendedor ambulante de origem senegalesa. Eu já o advertira de que a flor grega não era das que se cheirassem, mas ele não confiou no meu apurado olfacto no que concerne à detecção do feminino cio. Chegou, inclusivamente, a melindrar-se por eu pôr em causa a fidelidade da sua cara metade. 



Ora, o Raúl, como sujeito complacente que é, sujeitou-se a ouvir falsas explicações e não aviou, logo ali, os dois que lhe ataviaram a testa: vaca grega e bandarilheiro senegalês. Ao que parece, a lésbica, mal viu Raúl, encetou a sequência de lugares-comuns típica nestes casos, como comprovam novelas e filmes:

1) Levantou-se, num salto, e embrulhou-se no lençol, deixando o intumescido membro africano ao léu;
2) Cuspiu um "então não saías mais tarde do trabalho, hoje?";
3) Escarrou um "isto não é o que parece!";
4) Expectorou um "eu amo-te é a ti, e não a ele!".

Perante isto, deparo-me com algumas questões. Vamos, então, por partes, seguindo a ordem das alíneas anteriores:

1) Embrulhou-se no lençol para quê? Estava com frio? Ou tem alguma coisa a esconder? É que tanto um, como outro, já devem ter visto cada milímetro daquele corpo de todos os ângulos possíveis;
2) A sério? A culpa agora é do rapaz, por não ter ficado no escritório a fazer horas extraordinárias não remuneradas? Por acaso não queres que ele te vá comprar um maço de tabaco, enquanto tu acabas o que estavas a fazer, queres?;
3) Então mas o que é que parece? Ao Raúl pareceu que estavas a ajudar o senhor a matar esse bicho negro e grande que ele aí tem, à força de senaitadas. Não me digas que, afinal, estavam a praticar aquela coisa do coito ou lá o que é?;
4) Amas, não amas? Tu amas é, literalmente, o c...