quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Passeio vespertino

Achei-me, hoje, com tempo suficiente para um passeio vespertino. Comi, ao almoço, um valente prato de iscas, regado com um bom vinho tinto (se bem que para mim são todos bons. Enólogos e escanções que vão enfiar os taninos e os aromas pelos entrefolhos acima). Um bom vinho tinto, escrevia eu antes dos pertinentes parênteses, ali da região de Palmela e que, com toda a certeza, orgulharia o meu bom amigo Octávio Machado.

Voltando ao passeio, perdido nos meus pensamentos, fui desembocar num conhecido jardim da nossa capital. Sentada num banco, estava uma senhora na casa dos trinta anos. Belas e delicadas feições, um decote onde palpitavam dois apelativos seios, e a acompanhar tudo isto uma vigorosa, porém não excessiva, tranca. Cinco minutos me bastaram para formular uma abordagem infalível, aferir o hálito na palma da mão, e avançar com passo sereno, mas másculo.

Do teor da abordagem não vos darei pormenores, pois o segredo será não só a alma do negócio, mas também do engate. Basta-vos saber que acabei por seguir com a tal senhora para a sua residência, ali próxima. Porém, uma vez aberta a porta, chegou-me ao nariz um cheiro nauseabundo, e consequentemente a mostarda. Rapidamente me dei conta, pelo cheiro da habitação, pelas roupas espalhadas pelo chão,  pela ratazana que me pareceu ver cruzar a sala, de que caso ela se começasse a despir eu iria vomitar as iscas, e com elas as batatas (reparem no jogo de palavras entre o que acabei de escrever e o nome do prato: iscas com elas. Sou mesmo bom nesta merda). Adivinhei, num assomo de clarividência de que só as grandes mentes são capazes, que aquilo não iria correr bem. Inventei uma desculpa e fugi dali a correr. No caminho para casa dei comigo a pensar: esta mulher tem tudo para ser perfeita e é uma badalhoca de primeira água; esta gaja é o Nicolás Gaitán das mulheres. No melhor pano cai a nódoa, não haja dúvida.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Para quê pagar, se as como de borla?

Fico apreensivo ao saber que, a maioria dos tarados que leram o título deste post, pensaram imediatamente que me referia às nobres, e porém muy servis, senhoras que desempenham a mais remota profissão deste mundo. "Ah e tal, não acredito que a prostituição seja o mais antigo ofício de que há memória", dirão alguns parvos. Pois é, pasmem-se, mas há quem considere falsa esta ideia de que, nos primórdios da humanidade, a primeira coisa que se fez para ganhar alguns trocados foi alugar a ancestral bardanasca a terceiros. Pode, inclusive, ler-se na Wikipédia, a propósito desta temática:  "...a ideia de que a prostituição seja a profissão mais antiga do mundo não encontra qualquer fundamento histórico ou antropológico, visto que os mais antigos registros de atividades humanas revelam as mais variadas especializações como agricultura e caça, mas raramente revelam indícios de prostituição..."  (podem seguir o link se a minha palavra não vos chega, e até ponho aqui uma ilustração que eles para lá têm, seus desconfiados de merda).



Eu, como é meu timbre nestas questões polémicas, não concordo com esta tese! Então querem fazer-me crer que os Cains, os Abéis, os Moisés, os Abraões deste mundo, dispensaram a oportunidade de se tornarem proxenetas (segunda profissão mais antiga do mundo, seguindo o meu raciocínio) e optaram por ir apanhar batatas e caçar javalis? Querem que eu acredite que o homem, por mais calhau que pudesse ser, preferia empunhar diariamente enxadas ou lanças, ao invés de ficar sentado todo o dia a beber cerveja ou bebida equivalente a esta, naquela época, enquanto as mulheres faziam o trabalho por eles? Não me forniquem!

Mas dispersei-me com esta história de prostituição. Quando o tema vem à baila, perco-me sempre, não sei bem porquê. O título deste ensaio, chamemos-lhe ensaio, vem a propósito da laranjeira que a minha vizinha tem no quintal. Para quê gastar dinheiro em laranjas, se as tenho aqui à porta e de borla?


P.S.: Um conselho: se a imagem, que aqui coloquei, vos despertou alguma espécie de tesão, consultem um médico quanto antes. Eu cá já tenho consulta para amanhã.

domingo, 25 de novembro de 2012

Soneto da merda (e) da chuva

Esta morrinha irritante
molha-me a tola, e o vento
esguedelha, com mau intento,
o meu cabelo brilhante.

Menos perto que distante
vejo aquele monumento, 
possível abrigo, sustento,
mas a distância é gigante.

Encharcado e com tremores, 
já com passo vagaroso,
piso um excremento canino.

Com cãibras nos adutores,
resvalo no chão lodoso
e maldigo o meu destino.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ida à Luz gorada...

Ontem, por esta hora, estava convicto de que hoje iria à Luz ver o meu Benfica. Engano meu, é o que dá confiar em amigos trapaceiros que nos prometem bilhetes e depois desculpam-se por telefone, pois nem têm a coragem de dar a cara. O tal amigo trapaceiro disse-me qualquer coisa como: "Ah, afinal não vai dar porque o meu sogro pediu-me para ir comigo e eu não consegui dizer-lhe que não. Para desfeitear o homem já chega andar a comer-lhe a filha.", e riu-se da própria piada, parvamente. Eu respondi-lhe, sem corresponder à risada: "Não há problema, um dia destes convido-te eu para qualquer coisa. Mas tu vais mesmo comigo, para te desfeitear já chega andar a comer a tua irmã." Dito isto, desliguei a chamada.

Acabei por ver o jogo em casa (finalmente um jogo do Benfica em sinal aberto), e o que vi e ouvi foi isto:

- Uma cambada de cepos vindos da Escócia, que mesmo sem jogarem um cu e passando o jogo quase todo metidos no seu meio-campo, nos iam lixando definitivamente as contas do apuramento. Assim ainda podemos sonhar com uma vitória em Camp Nou, desde que não joguem Iniesta, Xavi, Messi e Bruno César;

- Salvio em grande, Enzo Pérez em grande (o que corre, aquele homem!), Ola John e Lima em plano bastante razoável, Luisão a comandar lá atrás e a assistir lá à frente o companheiro de posição, também ele muito consistente (desculpa Jardel, muito embora tenhas cumprido durante a ausência da careca mais feia do futebol português, não tens como te impor no meio daquela dupla, a não ser quando o Jesus se lembra de recuar, quando ainda estamos a criar perigo na área adversária);

- Um indivíduo, com um grau de deficiência bastante evoluído, fazer rebentar um petardo, sendo depois, e muito bem, assobiado por grande parte dos adeptos presentes no estádio. E escrevo grande parte porque temo que junto dele estivessem outros indivíduos com graus de deficiência análogos.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Reformulação de adágios

Não, quando escrevi adágios não me referia aos iogurtes, façam lá uma pausa nisso de serem parvos, e até sugiro que deixem de o ser definitivamente, num futuro mais próximo do que longínquo. Mas agora que falo em iogurtes vou ali virar um e já volto.

Já fui, já voltei, e aí está uma das vantagens da palavra escrita: não possuís forma de saber se me demorei por cinco ou dez minutos, ou se deixei o texto em suspenso por um dia ou dois e nem cheguei a comer o iogurte; não sabeis se efectivamente fui comê-lo, se fui defecar (cagar, para os mais brutos), ou se fui decepar o meu periquito com uma faca de mato, porque me andava a esfrangalhar os nervos com chilreios madrugadores, o sacana do bicho. Não tendes modo de saber se lhe deixei a tola separada do resto do corpo, num jorrar de sangue que faria o Tarantino roer-se de inveja.


Mas fui mesmo comer o iogurte, descansai! O sangue que me cobre as mãos, é de uma ferida por sarar que aqui tenho na palma de uma delas e o penso soltou-se ao matraquear as teclas.

Centremo-nos, então, no que viemos aqui fazer. É sobejamente conhecida a fertilidade da língua portuguesa em ditos populares, provérbios e adágios, muitos deles certeiros, outros com menos pontaria. O que aqui trago é dos primeiros, mas eu torná-lo-ei ainda mais certeiro. "Em terra de cegos, quem tem olho é rei!", diz a sabedoria popular e o Vale e Azevedo. Eu reformulo: "Enterra no cego, que tem olho do cu e é gay!". No parágrafo imediatamente subsequente, começo a história que me leva a tal reformulação.


Tenho um amigo (ou melhor, tinha um amigo, porque deixou de o ser, e mais abaixo ireis perceber porquê) que em tempos se meteu numa confusão com um cigano, na feira de Carcavelos. Dizia o     zíngaro que ele olhava com demasiada cobiça o decote da sua Alzira. O Manel (o tal amigo que   deixou de o ser) ripostava que não, que era mentira, mas dizia-o sem tirar os olhos do mamaçal cigano. Às tantas o ciumento salta para cima da banca de roupa contrafeita com um canivete em riste e grita "Ai, que te vazo os dois olhos já aqui!". E vazou. Depois de demoradas cirurgias oculares, foi impossível aos médicos recuperar a visão do, até então, meu amigo.

Até aqui tudo bem, no que concerne à amizade que nos unia. Cheguei, inclusive, a ir ao hospital dar-lhe a sopa aguada durante a fase de recobro. Acontece que, ao saber do verdadeiro motivo da rixa com o cigano, a esposa do Manel deixou-o. O cunhado, que, à época, vivia com eles, mais por rabetice do que por piedade, fez questão de ficar e auxiliar o Manel naquilo que este entendesse por necessário. Certo dia,  pouco tempo depois de ter ficado cego, numa fase em que ainda precisava de bastante apoio para as tarefas quotidianas, Manel preparava-se para um banho, sendo para isso ajudado pelo irmão da sua ex-mulher. Num momento em que se inclinou para tirar as meias, o cunhado, mais possante, agarrou-o com força e afiambrou-lhe no befe. O meu antigo amigo resistiu inicialmente, mas acabou por deixar-se arrastar para as malhas da panasquice. Hoje em dia atraca de proa que nem gente grande, pega de empurrão como se não houvesse amanhã, a fruta que mais come é a banana e não a come às rodelas, nem à dentada.

É triste mas é verdade, em poucos dias o Manel ficou sem ver, mas abriram-lhe melhor outro olho. Eis porque afirmo: "Enterra no cego, que tem olho do cu e é gay".

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Off the record

Em virtude dos conhecimentos que tenho na autarquia lisboeta chegou ao meu conhecimento que no decorrer desta semana se ponderou, em sede própria, adoptar uma medida semelhante à que foi adoptada recentemente em Roma. Quem parar numa praça da capital italiana para comer uma bucha, sujeita-se a uma coima que pode ir até aos 500 euros, para além de ver a sandocha ser confiscada, e quiçá deglutida, por um carabinieri menos escrupuloso no cumprimento do seu dever. Ao que parece, tal medida tem como objectivo cimeiro evitar que se poluam as principais praças da cidade com restos alimentícios.

Porém, parece que em Lisboa a medida não irá avançar por duas razões:

a) porque começa a ser raro ver pessoas comer;
b) porque  mesmo que sobrem restos alimentícios as pessoas da alínea anterior comem-nos em conjunto com a massa de pombos alfacinha.

Em sequência desta última alínea, e tendo em vista a redução da despesa pública, chegou até a ser sugerida, pela bancada mais à direita da assembleia municipal, a suspensão temporária dos serviços de recolha de lixo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

No versejar é que está o ganho


Li algures que "tudo é poesia". Não sei se num qualquer muro da minha amada Lisboa durante um dos meus passeios solitários por alamedas e ruelas; não sei se num qualquer livro da minha amada biblioteca; não sei se num qualquer jornal da minha amada casa-de-banho enquanto sentado fazia o que tinha a fazer. Sei que li e não concordei. E agora ao escrever que não concordei recordo-me perfeitamente que foi mesmo na casa-de-banho, pois disse para comigo: "Olha que bela merda" e entre peidos, ri-me do duplo sentido da frase que acabava de magicar.

Não considero, portanto, o que abaixo vem, como composição poética. A tanto não chega o meu talento. Pretendo apenas contar um episódio de vida de um grande amigo, que remonta aos tempos da minha puberdade. Versejo porque ao versejar trago à narrativa outra fluidez, outra musicalidade. Imaginem uma aldeia nos arrabaldes de Lisboa, imaginem montes e vales a cercá-la, imaginem a ruralidade típica deste espaço geográfico. Já está? Então sigam:

A triste e desditosa história de Zé Albano


Hesitou durante um ano,
mas enfim ganhou coragem.
De seu nome Zé Albano,
nascido junto à barragem.
Eis que sobe ao monte e grita:
- "Ó Rita, estás tão bonita!"
- "Cala-te, meu paspalho!" -
é a resposta que obtém -
"Vai mas é para o caralho,
p´rá puta da tua mãe!"
Zé desfaz-se num retalho,
e chora como ninguém.

Entre uivos de dor e lamentos
avista ao longe uma ovelha,
e em lentos movimentos
vira-se, olhando-a de esguelha.
- "Onde está o teu pastor,
que dele não vejo sinal?
Serás animal desertor
do rebanho do Cunhal?"
Desperto então do torpor
deita da narina um esguicho,
e despeja o seu amor
nos entrefolhos do bicho.

É com a calça arriada
que vê chegar o Cunhal
desatando à cajadada
na sua zona lombal.
Combalido e coxeando,
injúrias aos céus bradando,
da pastoril fúria se afasta.
Senta-se num cepo e medita,
maldiz a vida madrasta.
Mas clama apesar da desdita:
- "De desgraças já me basta,
a bem ou a mal como a Rita!"

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Da minha pessoa, ou nem por isso

Condicionadores não são apenas aqueles produtos que o mulherio, e um ou outro mariconço, põe no cabelo com a suposta finalidade de o tornar mais macio. Condicionadores são também estes meliantes que não me permitem usar mais de 500 caracteres na apresentação que pretendo fazer do meu blogue e de mim próprio. Esclarecendo os menos lestos no processamento encefálico, a apresentação consubstancia-se naquele pequeno texto que está no topo da página. Partindo, porventura erradamente, do princípio que captei a vossa atenção, quereis, com certeza, saber de onde venho, para onde gostaria de ir, para onde efectivamente vou, et cetera e tal.

O meu nome é Juvenal, assim optaram por me chamar meus pais sem o meu assentimento e concórdia, e por essa e outras razões tenho-lhes um ódio visceral só comparado ao que o ministro Vitor Gaspar tem aos contribuintes. Porém tenho vivido sob essa denominação durante toda a minha vida e já há bastos anos que meus pés calcorreiam esta terra. Este meu nome não seria para mim um fardo tão pesado se não existisse entre o ser humano essa perniciosa tendência, movida a toque da preguiça, de abreviar nomes: O Guilherme facilmente passa a Gui; o Rafael sem se dar conta passa a ser o Rafa; o Xavier distrai-se por breves segundos e é Xavi; e eu, malfadado, sou o Juve. 

Mas como se não bastasse este terrível jugo, lograram meus débeis progenitores apor um Leonardo ao, já de si cáustico, Juvenal. 

Juvenal Leonardo é, portanto, a minha graça.


Ora, como é do conhecimento geral, existe uma claque nos meandros do desporto nacional, que dá pelo nome de Juve Leo e que é afecta a um clube cujo nome evito escrever ou pronunciar, pois não pretendo originar náuseas a outrem, e muito menos desejo ser acometido por elas (para isso já chegou ter mencionado o nome da claque). Mas a simples suposição de que o meu nome possa ser associado a tal trupe, faz com que as entranhas se me revolvam e os olhos se me esgazeiem. Não sendo eu uma pessoa dada à violência, seja ela de que estirpe for, à conta de tais paralelismos já abri mais de uma vintena de cabeças, mais de uma trintena de sobrolhos e já rasguei outros tantos beiços.


É certo que se nos cingirmos à presente temporada futebolística, a fúria e a repulsa patentes no parágrafo anterior derivam numa condescendência sem limites, semelhante à que as beatas destinam aos mendigos a seguir à missa de domingo: "Ah coitadinho, até metes nojo!! Toma lá 0.50€ e que Deus Nosso Senhor te acompanhe." O que não diverge muito de: "Ah coitadinhos, até metem nojo!! Tomem lá o Rojo e uma vitória das vossas reservas sobre as nossas, na Luz."


Bem, já me alonguei demais. Aos poucos irei dar-me a conhecer melhor, queiram fazer o favor de me ir acompanhando caso tenham gostado do que leram até agora. Caso não tenham gostado espero que vos cresça uma borbulha execrável, cheia de um qualquer pus esverdeado, mesmo na ponta da penca, e que vos caia o lóbulo da orelha esquerda dentro do prato de caldo verde, e o comam, julgando que é a rodela de chouriço.