sexta-feira, 24 de maio de 2013

Feira do Livro

Começou, ontem, a 83ª edição da Feira do Livro de Lisboa e eu, obviamente, quero ver se lá dou um salto. Desde há alguns anos a esta parte desenvolvi este hábito, ou antes ritual, de me deslocar ao Parque Eduardo VII, passear-me durante uma ou duas horas por aquela ocasional conjugação de folhas arbóreas e folhas livrescas, comer uma fartura ou um gelado, beber um café ou uma imperial, e desembolsar consideráveis maquias em palavras alheias que passam a ser um pouco minhas, também.

Na edição do ano passado, se a matemática não me falha, a 82ª, recordo-me de chegar ao Marquês de Pombal já aviado com um pequeno saco contendo dois ou três grandes livros. Cruzei-me então com um antigo colega de escola, muito mais robusto fisicamente do que ao nível cognitivo. Depois dos costumados cumprimentos ele disse-me, sorridente: "Fostes comprar livros, não é? Continuas com a mania de que és intelectual, está visto..."




A esta interpelação eu respondi do seguinte modo:

- "Repara, se eu, efectivamente, tivesse a mania que sou intelectual, sugerir-te-ia agora que, de modo célere e resoluto, encetassses a subida desta alameda, prenhe de cultura e saber, e que ao lograres alcançar o topo da mesma sentasses o teu hediondo traseiro na escultura fálica com que João Cutileiro pretendeu assinalar os 25 anos comemorativos da revolução dos cravos. Não tendo eu essa mania, mando-te apenas e só para o caralho!"

Depois desatei a correr Avenida Fontes Pereira de Melo acima, porque levar sopapos no focinho é algo de que não retiro especial prazer.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Macacos-narigudos e outros macacos

São apenas dois os assuntos que aqui me trazem hoje. Coloquemo-los por ordem cronológica invertida (primeiro o que aconteceu em último lugar e em último lugar o que ocorreu primeiramente):
 
1) Ontem, pouco depois de virar dois pratos de empadão de atum,  pus-me a ver, na RTP2, a recta final de um programa sobre a fauna da ilha do Bornéu. Parece que, devido ao peculiar clima e a outras especificidades ambientais daquela região,  são comuns alterações morfológicas nas mais diversas espécies. Por exemplo, parece ser comum encontrar-se ali um escaravelho gigante ou um elefante pigmeu. Porém, para além desses animais mutantes, qualquer ambiente florestal que se preze requer macacos a saltitar pelos galhos das suas árvores. Apareceram, então, uns quantos macacos-narigudos, bichos castiços mas, infelizmente, em vias de extinção. Quase no final do programa, uma primatologista, de invulgar beleza para aquelas andanças, refira-se, afirmou, peremptoriamente, que quanto maior for a penca dos machos, maior será a atracção que as fêmeas por eles sentem. Se o Júlio Isidro tiver visto o mesmo programa deve ter maldito a sua sorte por as mulheres não pensarem da mesma forma que as macacas-narigudas. 
 

2) Por falar em macacos, também ontem, antes do empadão, recebi este SMS no meu telemóvel: "Andaste a meter com a melher dos otros, pode ser k ainda teinhas azar na vida, meu cabrão!!! Se te apanhu vais a ver!!!". Importa aqui referir que eu não conheço o remetente daquele conjunto de "palavras", mas consegui depreender o tom ameaçador com que se me dirigiu. Contudo, não estou seguro de o ter compreendido plenamente. Se alguém tiver algumas noções de escrita paleolítica, eu agradeço a ajuda. Espero, entretanto, que não seja algum macaco de nariz pequeno, todo cioso da sua fêmea. Porque, na minha óptica, todos os homens que amam verdadeiramente as respectivas mulheres, deveriam proceder com elas como procedem com uma boa publicação do facebook: se gostam, devem partilhar!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Histórias de bairro

Ainda mal o sol raiava, e rasgava as espessas malhas da noite, quando, das entranhas de um magnífico e esplendoroso corpanzil, rompeu altissonante brado. Toda a vizinhança se sobressaltou, e foram, a pouco e pouco, assomando, às janelas, cabeças que se manifestavam, à uma, curiosas e estremunhadas.

Após breves segundos despertadores, oportunos para remover indesejáveis remelas, principiaram as opiniões concernentes à origem do berro:

- Isto é a mais velha do Bento que já lá meteu macho em casa! Que pouca vergonha, não pode apanhar os pais na terra que é isto. Havia de ser minha filha, que eu cá lhas contava! - atirava, de rompante, a D. Deolinda.

- Não, não! - corrigia, prontamente, a D. Carlota - Isto é voz de moço, e moço de juízo toldado. Deve ser o filho da Leonor, benza-o Deus. Coitada, que cruz a dela. Raios partam o marido que não lhe bastava ter fugido com outra, ainda lhe havia de deixar um filho manglóide por criar.

- Quer-me parecer que estão ambas enganadas, comadres. - atalhou a D. Alzira - Isto não foi senão o carteiro com alguma carta registada e, como que não lhe atendessem à porta, berrou...

- Ou então foi só o uivo de algum cão, nós é que ainda estamos meio assarapantadas com o acordar assim às pressas, ó vizinhas! - opinou a D. Idalina.

Depois de tudo isto ouvir, saí da soleira da porta em que me encontrava e disse:

- Alto lá, suas pegas! Isto fui só eu que cheguei agora bêbedo e mandei com os cornos num poste. Mas se o Bento está na terra, esperem lá que eu já lhe vou tratar da tosse à filha.

Posto isto, as senhoras chamaram-me ordinário em uníssono e recolheram aos respectivos aposentos num forte estrepitar da madeira e do alumínio das janelas.

sábado, 27 de abril de 2013

Transportes (demasiado) públicos

Já há algum tempo que não andava de transportes públicos com a frequência que tenho andado no último par de meses. Não me parece que o porquê dessa mudança de hábitos seja da vossa conta, no entanto, façam as conjecturas que bem entenderem, pois estou-me bem a cagar para isso. Pode, muito bem, ser porque não me apetece contribuir regularmente para o enriquecimento das gasolineiras, ou porque não tenho meios financeiros para contribuir regularmente para o enriquecimento das gasolineiras. Pode, também, sê-lo porque não tenho, sequer, veículo próprio ou carta de condução. Pode, outrossim, dever-se ao facto de até há dois meses atrás eu mais não fazer do que ficar no conforto do lar a coçar este valente par de tomates que é o meu, sobrevivendo às custas da Segurança Social, e agora, acabado o subsidio, ver-me forçado a alancar num restaurante, café ou estabelecimento afim. Ou pode, simplesmente, acontecer porque gosto de me embrenhar entre a comum das gentes, ora tentando escutar diálogos obtusos entre intervenientes menos esclarecidos, ora tentando escutar monólogos oclusos de um ou outro chanfrado, ora tentando observar comportamentos estranhos, manias, tiques nervosos, e perante tudo isso, regozijar-me por, afinal, reparar que não bato tão mal do penico quanto julgava.

Ontem, em plena carruagem do Metro, ditou a sorte madrasta, que se sentasse à minha frente um monhé (a atirar mais para o paquistanês do que para o indiano, mas com similar bedum a caril). Trazia um turbante na tola, que lhe conferia, à vontade, mais meio metro de altura, exibia farfalhuda barba branca, olhos negros e penetrantes, suava em bica, murmurava imperceptivelmente e trazia um saco suspeito dependurado do braço esquerdo. Múltiplos e estridentes alarmes soaram, de imediato, na minha cabeça e saí dali a correr, disparado. Se o paquistanês rebentou com a carruagem, e com quantos iam nela, não sei, ainda não vi nenhum noticiário desde então. Mas sei que eu estou a escrever este texto, todo inteiriço, pois sou muito mais apologista do mais vale prevenir do que remediar, do que do depois de casa roubada, trancas à porta.



Transporte alternativo ao Metro? Autocarro, ora pois. Rapariguita nova, vulgarmente designada por pita, entra na paragem posterior àquela em que entrei e senta-se no lugar defronte àquele em que o meu distinto rabo assentava. Falava, ou antes, gritava ao telemóvel. Do que a interlocutora dizia do outro lado não pude, obviamente, ter certezas, mas a minha companheira de viagem expelia, boca fora, alarvidades desta espécie, entremeadas com um riso particularmente irritante: "Fostes à festa, ontem?"; "Ina, encontrastes o Nélson? Tipo, o gajo é alto pão, né?"; "Há-des me dizer porque é que não me convidastes, sua porca!"; "Iá, fui ao Mac. Almocei alta Big Mac e McFlurry"


Não fosse o elevadíssimo apreço que nutro pelo segundo tomo do Dom Quixote de la Mancha, edição de coleccionador em capa dura, e juro que ela, para além do Big Mac e do McFlurry, tinha almoçado com ele nos cornos.

sábado, 20 de abril de 2013

Quando eu for grande...

Cansados que estejam,  ou não, de ler o que escrevo, continuarei a submeter-vos à pena da minha pena, enquanto tal me der na real gana. Uma vez mais, dei com um texto que remonta à minha mais primeva idade, época de menores ralações e de mais farto cabelo. Depois de aqui vos ter deixado as minhas composições subordinadas aos temas do cão e da praia, desta feita reproduzirei integral e fielmente uma redacção intitulada Quando eu for grande...

Quando eu for grande vou ser maior do que sou agora, e vou ter mais dinheiro sem precisar de pedir ao meu pai, porque ele não gosta que eu lhe peça. De cada vez que lhe peço dinheiro para cromos ou pastilhas ele diz sempre - Deves de julgar que eu ando a roubar carteiras! Eu não sei se o meu pai anda a roubar carteiras ou não, mas o Pedrinho e o Marco andam a roubar chocolates Regina no supermercado do senhor Afonso, que eu já vi. Eles dizem para eu roubar também, mas eu nunca roubei nada, nem nunca faltei à catequese, nem à missa, nem ao ATL, por isso é que às vezes não tenho tempo para fazer os trabalhos de casa.

Quando eu for grande o meu pai vai ser mais grande ainda, ou então vai morrer porque já vai ser velhote, só que eu não queria que o meu pai morresse, nem a minha mãe, nem a minha irmã, nem a professora dona Ermelinda. Os outros para mim podiam morrer todos, estes é que não..

Quando eu for grande já não vou vir para a escola com a mala toda cheia de livros, e cadernos, e lápis, e canetas, e apara-lápis e essas coisas todas que sozinhas nem pesam muinto, mas que todas juntas, parecendo que não, ainda custam a carregar. Eu por acaso até não sei se pesam, o Marco é que diz que sim, porque ele traz sempre a mochila dele e a minha, mas não é porque eu digo que lhe parto a cara toda se ele não trazer, ele é que quer assim.

Quando eu for grande vou ter barba e as raparigas vão-se queixar-se porque as vou picar quando lhes der beijinhos na cara. Mas se for na boca elas já não se vão se queixar-se, e vão gostar. Só que vão dizer para eu parar e vão-me empurrar-me, e depois vão-me puxar-me pela camisola para eu dar mais, que eu já apanhei a minha irmã a fazer isso a uns quantos marmanjos.

Quando eu for grande vou jogar no Benfica, no lugar adonde joga o Magnusson, só que vou ser português e moreno, e vou marcar ainda mais golos do que ele, porque eu também jogo bem com os pés, não é só com a cabeça. Mas à baliza não vou, porque à baliza vão sempre os que não sabem jogar à frente. Outra coisa que eu também gostava de ser era polícia, para prender os ladrões e os assassínios. E eu sei que vou ser bom polícia, porque quando jogamos às pistolas lá na rua, eu ganho sempre. Os outros dizem que eu sou batoteiro, e que só com um tiro mato aos três e aos quatro, mas é mentira, tenho é a apontaria afinada. O que eles tem todos, é mal em perder.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Coito ou concerto? "Não o sei e sei-o bem" (título este, que até ao ponto de interrogação, é da minha autoria, mas que depois disso é daquele caixa de óculos que mamava absinto que nem um camelo e depois era mais que um. Pois, pudera! Agora falha-me o nome do gajo)

Aqui há dias, por motivos alheios à minha mais pura vontade, e por (má) via televisiva, vi a Ana Malhoa em pleno coito. Ou foi em pleno concerto? Não, aquilo era coito. Vá, concedo que talvez fosse uma síntese das duas coisas, mas claramente a pender mais  para o lado do coito. Perante tal visão, não pude evitar que os seguintes pensamentos desembarcassem no meu cérebro em catadupa, quais tropas aliadas na Normandia:

- Esta gaja tem mais tinta no corpo do que uma loja da Robbialac tem em stock;
- Entre ir vê-la ao vivo e ir a um bar de Striptease, encontro apenas duas diferenças: no bar de Striptease tenho de calçar um sapatinho para entrar, nem que seja um mocassin, e as strippers sempre entram em palco vestidas;
- Malho(u-)a? Quem? O Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e Vale do Tejo?;
- Com tanto azucar, azucar, azucar, ainda é capaz de lhe dar uma hiperglicemia;
- Já há muito tempo que não me sentia violado por uma mulher sem que ela sequer me tocasse. Será que a engravidei? É que nem tive tempo de me encamisar...


"Ah e tal, ó Juvenal, és um ganda porco, a falar assim da rapariga" - dirão os Austrolopitecos e outros hominídeos supostamente extintos, mas que dão, amiúde, ares da sua graça. Pá, se calhar até sou, mas pelo menos tomo um banhinho quando acabo de pintar a sala, em vez de me ir pôr a dar "concertos".

sábado, 13 de abril de 2013

Queres vir cá a casa "ver um filme"?

São variadíssimas as vezes em que a, nunca por demais celebrada, questão que intitula este texto, me é dirigida por senhoras carentes e libidinosas. É óbvio, até aos olhos das almas mais castas, que a questão encerra em si um significado completamente distinto daquele que aparenta, daí as aspas que cercam as três últimas palavras.

Ao responder positivamente à questão, como quase sempre acontece (a isso obriga a minha masculinidade), ambos ficamos a saber, eu e a ocasional senhora, que seremos nós os únicos protagonistas desse "filme" com classificação para maiores de 18 anos e que o mesmo terá, garantidamente, um final feliz; ambos ficamos a saber, eu e a ocasional senhora, que será uma questão de rebobinar e passar para a frente, de rebobinar e passar para a frente, de rebobinar e passar para a frente, com eventuais pausas pelo meio, até chegar o inevitável clímax da acção; ambos ficamos a saber, eu e a ocasional senhora, que depois do clímax ela quererá ver os créditos, e eu, que abomino os créditos, quererei apenas fazer uma breve recensão crítica do "filme" e vir-me embora sem mais delongas. 



Que se torne assim límpida a hipocrisia que subjaz a esta questão. O pretexto do filme é um dos mais triviais, nestas ocasiões, assim como o é o truque do balde de pipocas no cinema. A título de exemplo, ontem, do filme "De rouille et d'os" não vi senão a primeira cena, mas a ocasional senhora viu, e sentiu animadamente, o "os". 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pesca

Esta merda de ir à pesca com um tempo destes, e apanhar só um chicharro, não é nada agradável! Para a próxima levo o Diogo Morgado.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Aliteração erótico-sibilante

Saber-me-ia soberbamente bem se, de súbito, sugasse sofregamente soberana e sacrossanta senaita, seguindo-se a isso, simplesmente, uma sossegada sesta...

segunda-feira, 8 de abril de 2013

EQM

Muitos dos poucos leitores que aqui vêm com alguma regularidade têm-me apontado o dedo, no mais das vezes em mensagens privadas. Talvez não tanto a mim, mas mais ao teor do que escrevo. Dizem eles que para além de escatologia, violência explícita e sexualidade pura e dura, pouco mais se pode extrair do meu solo textual. Fosse eu mais dado a beligerâncias, como fui em primaveras passadas, sugerir-lhes-ia que pegassem nesses dedos que me apontam e os enfiassem bem no meio dos respectivos cagueiros. Porém, estou a tentar  tornar-me numa pessoa melhor e, como tal, tenho tendido a gerir melhor os meus acessos de fúria.

Como prova disso mesmo, nas linhas que se seguem, tentarei manter-me afastado dessas temáticas, ainda que, em minha defesa e em defesa das ideias que pretendo perpassar, me sinta na obrigação de atalhar que, geralmente, onde os leitores vêem escatologia, eu vejo fezes e flatulências eufemísticas, onde detectam violência explícita, eu detecto socos e pontapés metafóricos, onde vislumbram sexualidade pura e dura, eu vislumbro pénis e vaginas metonímicos. Ou, talvez aí, também vislumbre sexualidade pura e dura, não sei ao certo.

Mas adiante porque, como em tempos ficou escrito, o caminho faz-se caminhando. Na próxima quinta-feira, o programa televisivo Linha da Frente, que passa na, por enquanto, televisão pública, abordará o tema das Experiências de Quase Morte (doravante designadas como EQM). Por mais macabro que isto possa parecer, este é um assunto que sempre me fascinou. As pessoas que vivem (ou quase morrem) estas experiências verão,  ipsis verbis, uma luz branca muito intensa? Sentirão, de facto, como que uma separação entre corpo e alma? Verão, efectivamente, os momentos mais marcantes das suas vidas passar-lhes diante dos olhos, numa espécie de flashback acelerado? Há toda uma névoa a encobrir as EQM. Nem médicos, nem cientistas, nem sequer espiritualistas são capazes de dar respostas definitivas e esclarecedoras a este respeito. Tudo o que sabemos é o que a malta que quase patina nos conta quando melhora, mas essa malta pode muito bem não passar de uma cambada de embusteiros. A título de exemplo reparem no actual governo da nossa república, após a recente decisão do TC todos o davam como morto, mas ele estrebuchou veementemente e aí está, de novo, a tentar comer-nos por parvos.

No que me diz respeito, certa vez estive bastante próximo de obter algumas respostas cabais sobre as EQM. Aconteceu quando um grande amigo meu, merecedor da minha total confiança, sofreu um gravíssimo acidente de viação. Os médicos já o davam como clinicamente morto, mas ele voltou à vida e ao pleno uso das suas capacidades cognitivas, depois de ter estado nesse processo límbico. Ao saber disso, corri de imediato até ao Santa Maria na expectativa de saber da boca dele aquilo que havia experienciado durante a sua EQM, e ele faz-me uma das piores desfeitas de que tenho memória, morrendo-me ali, perene e definitivamente, sem sequer me dizer uma palavra. Hoje já consigo perdoá-lo, e como dizem as beatas, que Deus o tenha em paz e descanso, mas na altura fiquei tremendamente sentido com aquilo, saí dali disparado sem dar as minhas condolências à família, e nem sequer pus os pés no velório ou funeral. 

Estão contentes agora, os mais pudicos? Nestes dois últimos parágrafos mantive-me fiel ao que me propus: não há escatologia (ou melhor, até há, mas na outra acepção do termo que não a dos excrementos), não há violência (pelo menos explícita) e não há o mínimo vestígio de sexualidade (mas só aqui no texto, porque ali nos meus lençóis já não garanto que amen).

segunda-feira, 1 de abril de 2013

I love...

Antes de tudo o mais, uma elucidativa nota prévia: é dia das mentiras mas, no que vos vou contar, garanto não haver o mínimo vislumbre de ficção.

Há coisa de duas ou três horas, passeava eu a minha incomensurável beleza pelas olisiponenses ruas, e cruzei-me  com uma mocinha que em termos de idade não ultrapassaria, garantidamente, os dezoito, dezanove anos. Trajava, a dita, umas calças justas, uma camisola de capuz, uns ténis  de cores estonteantes e tinha o cabelo entrançado, à laia de uma Lara Croft ou Pipi das Meias Altas. De toda essa indumentária, uma só coisa reteve a minha atenção por mais tempo do que o estritamente necessário nestas circunstâncias e, por incrível que pareça, não foram os ténis multicolores. Estarão, com toda a certeza, familiarizados com t-shirts e camisolas exibindo mensagens do género: "I love NY"; "I love myself"; "I love cerveja"; "I love acids"; "I love chocolate" e por aí fora, sendo que, em praticamente todas elas a partícula "love" se substitui por um coração bem avermelhado. Não raramente, como, aliás, poderão verificar pelos exemplos que acima dei, ocorre misturarem-se,  nestas peças de vestuário, a linguagem simbólica do coração, o idioma de Shakespeare e a veneranda língua de Camões.


Ora, como já perceberam, caso não sejam estúpidos, aquilo que mais me estupefez naquele recontro, foi a mensagem que a camisola de capuz ostentava. Infelizmente, não consegui perceber bem a primeira letra da palavra que vinha a seguir ao coração, dada a rapidez com que se deu o meu cruzamento com a rapariga e dado que, do ângulo de visão que me calhou em sorte, a letra se encontrava parcialmente encoberta pelo considerável volume mamário da rapariga. Ainda assim, percebi tratar-se de um B ou de um R. Quanto às restantes letras dessa palavra, não me assaltaram quaisquer dúvidas: eram, claramente, duas vogais escoltadas por duas consoantes formando, em conjunto, um inconclusivo "icos". Mas, se lhes juntarmos o tal B ou o tal R, dissipa-se a névoa e ficamos com Bicos ou Ricos, respectivamente. Em suma, das duas uma: ou a miúda adora bicos, ou a miúda adora ricos. Qualquer uma das hipóteses é, para mim, desconcertante, mas, caso fosse a primeira, teria todo o gosto em dar vazão ao amor da moça. Já quanto à segunda hipótese, nada posso fazer, pois não passo de um mero assalariado sem perspectivas de enriquecimento, seja ele lícito ou, o tão português ilícito.

sábado, 30 de março de 2013

Birdwatching

Como, decerto, já terão reparado aqueles que habitualmente lêem os meus textos e como, certamente, irão reparar os que os lerem daqui por diante, há assuntos que, pela relevância que têm, merecem a minha particular atenção.

Embora saiba que, nas linhas que se seguem, corro o risco de vos perder, vou dar um passo em frente, tal como o outro que estava à beira do precipício (para os menos esclarecidos nas andanças futebolísticas, o outro que acima refiro foi um proeminente lateral-direito do Futebol Clube do Porto, na década de 80 e nos primórdios da de 90, e que, contrariando todas as noções cromáticas, matemáticas e anatómicas, afirmou também que o seu coração tinha apenas uma cor: azul e branco).

Nos seus tempos livres, o comum dos indivíduos vai às compras com a namorada e fica à porta da Zara a controlar as namoradas dos outros, ou então vai ao cinema, vai à praia, vai praticar desporto, vai a uma sex-shop, vai ver um peep-show, vai ao Parque Eduardo Sétimo atirar balões de água aos maricas. Enfim, há mil e uma actividades corriqueiras a que podemos dedicar-nos para entreter o ócio. Porém, sou da opinião que tudo deve ter os seus limites. Já ouviram falar no Birdwatching? Que merda vem a ser aquela? Que espécie de gente é esta que estando em casa sem nada para fazer, decide agarrar nos binóculos e ir para a mata espreitar os melros, os pintassilgos e os beija-flores? Eu dava-lhes o que beijar, dava-lhes. Se ainda levassem uma pressão de ar e tratassem de arranjar almoço...


No fundo, estes gajos não passam de voyeurs, mas em versão ultra-doentia. Um gajo ir para as dunas com os binóculos, em busca de duas bifas em topless a jogarem às raquetes, e esgalhar uma sarapitola à conta disso, ainda é algo que cabe no meu entendimento. Agora ir espreitar o passaredo na sua intimidade? Deixem lá os bichos sossegados, senão ainda levam com uns balões de água no focinho...






quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia mundial da poesia


Azevia

Sendo da poesia, o dia
e de lanchar, a hora,
vou comer uma azevia,
não mais logo, e sim agora.


"Azevia em pascal data?
Isso não é no Natal?"-
perguntas tu, vil primata,
tosco atrasado mental.


É no Natal, se eu quiser
ou na Páscoa se o achar.
A fome é minha mulher
e terei de a aplacar.


Tratada que está, consolada,
recosto-me, arroto e medito:
e agora uma canzanada,
eles a baterem no pito?

terça-feira, 19 de março de 2013

Praia

Deixo-vos abaixo mais uma das minhas pueris composições:

A praia

Gosto inmenso de ir á praia, mas agora é inverno e não posso ir. Se fosse eu a amandar acabava com o inverno, porque no inverno faz frio e chove, e as pessoas ficam custipadas e andam sempre cheias de ranho nos narizes e na boca e isso é nojento e dá-me vontade de botar fora o almoço.

Só no verão é que vou á praia com o meu pai, com a minha mãe e com a minha irmã. Ás vezes o meu pai leva o Eusébio também, para ele não ficar em casa a fazer xixi na cozinha. O meu pai prende-o ao chapéu de sol e ele ladra muinto e as outras pessoas reclamam, mas o meu pai amanda-as calarem-se e elas calam-se porque ele é grande e mete medo. Ás vezes os meus tios e os meus primos também vão e eu gosto mais assim, porque posso jogar ás raquetas e à bola em contra eles. A minha irmã nunca quer jogar ás raquetas nem à bola, fica sempre na toalha a pintiar-se e a olhar para os nadadores-salvadores sem o meu pai ver, porque se ele ver dá-lhe logo uma lamparina nas trombas.

O meu pai costuma ir sempre para a beira da água e fica com as mãos atrás das costas a ver as pessoas passar. A minha mãe diz que ele tem a mania que é o guarda da praia e ele amanda-a pintiar macacos, só que a minha irmã é que é boa a pintiar. Ela quando fizer dezoito vai ser cabeleireira ou então ladrona, porque o meu pai diz que com as companhias com que ela anda ainda vai é mas é acabar na cadeia.

Uma vez fomos todos á praia do rei e apareceu umas alforrecas que picaram o meu primo Mário na perna. A perna ficou toda vermelha e inchada e ele ficou cheio de comichões e a chorar, que até parecia um bébé. O meu pai disse que o xixi fazia bem áquilo, porque era antisértico, ou lá o que era. Eu como estava aflitinho pedi para ser eu a fazer xixi para cima da perna do Mário e o meu pai e o meu tio deixaram. Como ele estava deitado no chão e a mexer-se muinto, eu atrapalhei-me e também lhe fiz xixi para a cara, mas foi de sem querer, não foi porque ele uma vez me roubou os únicos dois bonecos da playmobil com cabelo e braços, que eu ainda tinha.

Mas o que eu gosto mais na praia é das bolas com berlim, mas não posso comer muintas senão fico gordo como o meu primo Mário, e depois não consigo fugir das alforrecas a tempo. Também gosto daqueles aviões que passam com mensagens e atiram camisolas. O meu pai apanha sempre muintas porque é grande e forte e as outras pessoas só lá vão tentar apanhar também quando ele já está cansado. 




quinta-feira, 14 de março de 2013

Ressurreição


Há muito tempo que não versejo, pelo que, em homenagem a todos os que já sofreram as agruras do amor, aqui ficam estes versos, como que a lembrá-los de que há sempre outro(s) colo(s) onde pousar a(s) cabeça(s):

Ressurreição

Partiste e partiste-me, ó derradeira pétala rosácea
do meu lúgubre jardim!
Varreste-me para debaixo do tapete da entrada
e estou sem saída, agora.
Enfiaste-me num saco preto, asfixiante,
onde morro,
vou morrendo,
todos os dias um pouco.

Porém espera, ressuscito na sombra daquela acácia.
Renasço e volto a mim.
Ali se encontra casta moça, deitada,
e já minha mente a desflora.
A passo lento me acerco, hesitante, 
mas, num jorro,
saio correndo
e nela me engancho, qual louco!


quarta-feira, 13 de março de 2013

Ramiro

Em tempos pretéritos, viveu, no local que é hoje conhecido como Arroteia, um homem formidável, tanto em dimensão corporal, como em pobreza de intelecto. Em altura, cinco pipas de moscatel empilhadas não lhe fariam justiça; em largura, três tonéis de tinto acoplados não se lhe comparariam, em inteligência toda e qualquer rocha, calhau ou pedregulho lhe faria frente.

À sua repugnante fisionomia somava-se ainda uma estranha disfunção que fazia com que Ramiro, assim se chamava o infeliz, vertesse merda pelos olhos e lágrimas pelo cu. Não sei através de que processos gastroenterológicos ou lacrimais isso acontecia, nunca ninguém o soube. Nem mesmo tendo sido consultados os mais virtuosos doutores da medicina e da igreja, se conseguiu chegar a uma conclusão. Os primeiros ficavam boquiabertos e abismados, sem qualquer explicação cabal para que tal acontecesse, uma vez que não detectavam qualquer distopia interna, à excepção da reduzida dimensão encefálica; os segundos não ficavam menos estupefactos, mas exclamavam que se os desígnios do Senhor haviam ditado que assim fosse, não poderiam senão resignar-se e orar para que o supra-mencionado Senhor minimizasse o sofrimento de Ramiro, e não deixasse tresmalhar aquela ovelha do seu infinito rebanho.

A todos os exames e observações a que era sujeito, Ramiro submetia-se de impávido e sereno modo. Para sorte dos narizes dos seus conterrâneos, poucas eram as vezes em que se entristecia ou se deixava abater pelo infortúnio. Muito pelo contrário, como é, aliás, apanágio dos tolos, Ramiro babava-se e ria-se em demasia e, no mais das vezes, a despropósito. Mas à noite, na solidão da sua alcova, quer fosse por medo do escuro, quer fosse por lamentar a sua desdita, o disforme indivíduo chorava e cheirava muito a merda.   

Faleceu ainda novo, quando aos 35 anos de idade o acometeu uma atroz diarreia que o fez chorar durante dias, o que, por sua vez, fez chorar toda a vizinhança.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A vaca grega e o bandarilheiro senegalês

É, demasiadas vezes, volátil, esta vida que vamos levando. Ora nos sentimos abençoados pela graça divina, com uma sucessão de dias imaculados, ora nos vemos confrontados com dores de cabeça da mais diversa ordem, quer sejam elas motivadas pela vileza de outrem, quer pela nossa própria necedade.


Vem esta conversa a propósito de um amigo que tenho e estimo, e que há dias se viu presenteado com uma parelha de chifres pela sua loiríssima e lésbica esposa. É lésbica, não por venerar cricas, como o homem que escreve estas linhas,  mas antes por ser esse o gentílico de quem é natural da grega ilha de Lesbos. Venerasse ela cricas, como o homem que escreve estas linhas (nunca é demais realçá-lo), e o Raúl não a teria apanhado nos preparos em que apanhou.

Situação cliché ou não, o certo é que o Raúl regressou mais cedo a casa, nesse dia de má memória. Entrou no quarto e deu com a Aristocleia a cavalgar o tisnado varapau de um vendedor ambulante de origem senegalesa. Eu já o advertira de que a flor grega não era das que se cheirassem, mas ele não confiou no meu apurado olfacto no que concerne à detecção do feminino cio. Chegou, inclusivamente, a melindrar-se por eu pôr em causa a fidelidade da sua cara metade. 



Ora, o Raúl, como sujeito complacente que é, sujeitou-se a ouvir falsas explicações e não aviou, logo ali, os dois que lhe ataviaram a testa: vaca grega e bandarilheiro senegalês. Ao que parece, a lésbica, mal viu Raúl, encetou a sequência de lugares-comuns típica nestes casos, como comprovam novelas e filmes:

1) Levantou-se, num salto, e embrulhou-se no lençol, deixando o intumescido membro africano ao léu;
2) Cuspiu um "então não saías mais tarde do trabalho, hoje?";
3) Escarrou um "isto não é o que parece!";
4) Expectorou um "eu amo-te é a ti, e não a ele!".

Perante isto, deparo-me com algumas questões. Vamos, então, por partes, seguindo a ordem das alíneas anteriores:

1) Embrulhou-se no lençol para quê? Estava com frio? Ou tem alguma coisa a esconder? É que tanto um, como outro, já devem ter visto cada milímetro daquele corpo de todos os ângulos possíveis;
2) A sério? A culpa agora é do rapaz, por não ter ficado no escritório a fazer horas extraordinárias não remuneradas? Por acaso não queres que ele te vá comprar um maço de tabaco, enquanto tu acabas o que estavas a fazer, queres?;
3) Então mas o que é que parece? Ao Raúl pareceu que estavas a ajudar o senhor a matar esse bicho negro e grande que ele aí tem, à força de senaitadas. Não me digas que, afinal, estavam a praticar aquela coisa do coito ou lá o que é?;
4) Amas, não amas? Tu amas é, literalmente, o c...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Eusébio

Remexendo em gavetas e caixas fui dar com um vasto leque daquilo a que a Dona Ermelinda, minha professora no ensino básico, chamava de composições. Se bem me recordo, eram recorrentes as ocasiões em que ela nos pedia que escrevêssemos algumas linhas subordinadas a um tema da sua predilecção.

Feliz ou infelizmente, não me é possível reproduzir, aqui, as especificidades caligráficas (coisa abominável, essa de obrigar crianças a tais actos de tortura. Aquele "G" e aquele "H" não lembram a ninguém). Porém, vou reproduzir o conteúdo de um desses textos, mantendo-me fiel aos erros ortográficos, de acentuação e de pontuação. Sim, também os cometi. O caminho até à perfeição levou algum tempo a trilhar. Não esconderei, também, algumas falhas de discernimento, próprias em tão tenra idade. De qualquer forma já transparecem, nestas linhas, alguns laivos de apurado raciocínio lógico e, diria até, de uma genialidade latente.


O cão


A gente lá em casa tem um cão. Chama-se Eusébio como o jogador que jogava no Benfica e ganhou os campeonatos aquase todos em que entrou. Não percebo bem porque é que o meu pai pôs esse nome ao bicho, ele é daquela marca francesa com os pelos aos caracois, e a única coisa que tem preta é o focinho adonde o meu pai costuma amandar pimparotes até ele começar a espilrar. Mas de resto é todo branquinho e o Eusébio é preto e chutava a bola com mais força do que eu, mas quando eu for grande também vou chutar com força como ele, só que vou ser branco ou então cigano, porque o meu pai às vezes diz que eu sou filho de um cigano, mas na marternidade trocaram-me. O cão devia era de chamar-se Chalana porque é mais parecido com ele e também corre muito.

Uma vez fomos jantar à feira popular com os meus tios e o cão ficou sozinho em casa. Gostei muito      dessa noite porque andei nos carrinhos de choque e na montanha russa. Só não gostei foi de ter vomitado fora o jantar depois da montanha russa. Mas ao fim do cabo acabou por ser giro na mesma, porque os meus primos, os meus tios, o meu pai e a minha irmã riram-se todos muinto e chamaram-me mariquinhas. Só a minha mãe é que não se riu-se e disse que eles eram todos umas bestas quaderadas. Depois fui andar nuns poneis que lá havia a andar às rodas e aquele em que eu estava começou a crescer-lhe a pilinha, até arrastar pelo chão. Riram-se todos outra vez e a minha mãe fez força para não se rir, mas não aguentou e riu-se também. Eu não fiquei chatiado com eles porque eles são da minha família e tenho de gostar deles, mas mais da minha mãe porque ela é que me faz a comida.


Mas esta composição é sobre o cão e não é sobre a feira popular. Quando chegámos a casa o cão tinha feito xixi pela cozinha toda. O meu pai ficou muinto furioso, pegou-lhe no pescoço e esfregou-lhe o focinho no xixi e depois foi a correr para a rua e esfregou-lhe o focinho no chão da rua. Ele diz que é para o cão aprender que tem de fazer xixi na rua e não na cozinha. Mas o cão deve de ser burro porque ontem fez xixi na cozinha outra vez.

Uma vez entrei no quarto da minha irmã mais velha e ela tinha o pipi todo bezuntado com tulicreme de avelâs  e o Eusébio estava a lembê-lo. Ela tinha os olhos todos brancos e estava a respirar como se tivesse a correr, devia de estar cansada. Eu primeiro fiquei priocupado com ela mas depois ela viu-me e ficou toda vermelha como os tomates. Eu fiquei muinto triste e chatiado porque gosto de comer pão com tulicreme e assim já não havia mais. Ela pediu para eu não contar a ninguém e eu disse que não contava se ela me desse dinheiro para comprar um sekeite. Ela disse que não tinha mas que ia arranjar e depois arranjou não sei como. E eu agora é que vi que me esqueci do que prometi à minha irmã e estou a contar à senhora perssora Dona Ermelinda. Mas agora já está feito o mal porque isto está escrito a caneta e a senhora perssora Dona Ermelinda não gosta que a gente risque ou apague com aquelas borrachas azuis porque estragam o papel todo e fica feio. Deviam era de inventar uma tinta branca para a gente usar e depois escrever por cima quando secasse.

O Eusébio nunca mordeu a ninguém menos uma vez que mordeu ao carteiro, mas é bem feito porque o meu pai diz que o carteiro é do Sporting e só lhe trás cartas com contas para pagar e depois o meu pai tem menos dinheiro para me comprar brinquedos e carteiras de cromos.

O Marco é meu vizinho e tem um cão maior do que o meu e que se chama-se Golias e parece um cavalo. O Marco costuma montar-se em cima do Golias mas ao Golias nunca cresceu a pilinha como ao ponei da feira popular. Eu também gostava de montar o Golias, mas o Marco não me deixa. Mas não faz mal porque eu jogo futebol melhor do que ele e ele vai sempre à baliza. E uma vez dei um beijinho na boca da irmã dele e ele nunca deu um beijinho na boca da minha irmã porque ela gosta mais do Eusébio.

Quando chegar a casa vou fazer festas ao Eusébio e vou-lhe dizer-lhe que hoje escrevi uma composição sobre ele. Só que ele não deve perceber porque é estúpido e faz xixi na cozinha em vez de fazer na rua como o meu pai lhe ensinou.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dia dos namorados

Quinta-feira passada, dia 14 de Fevereiro, dia dos namorados. Saio à rua, não chove. O sol vai, paulatinamente, enchendo o meu âmago  de uma alegre felicidade e de uma feliz alegria, passe o duplo pleonasmo, que até vos deixou atordoados. Ao atravessar a estrada, em plena passadeira, reparo que tenho o atacador do meu ténis esquerdo desapertado. Agacho-me e aperto-o. O condutor  de um automóvel branco, que parara para eu passar, acha o meu comportamento inusitado, quiçá abusivo e buzina. Sugiro-lhe que proceda à introdução da buzina na sua própria cavidade anal, e ao fazê-lo mostro-lhe o dedo médio da minha mão esquerda, num magnífico desdobramento de falanges. Numa atitude inteligente, ele não reage, preservando, desse modo, tantos dentes quantos tinha na boca.  Passado esse breve momento de tensão, chego ao outro lado da estrada e digo para comigo: ora aí está um bom dia para ires comprar um ou dois pares de calças, pois todos os que tens estão a rasgar-se, e pela zona em que é, muito provavelmente deve-se ao volume de outro par que possuis desde que vieste a este mundo.

Assim o disse, assim o fiz: linha azul do metropolitano de Lisboa, Baixa-Chiado, Rua Augusta. Compro as calças, vou comer um gelado e começo a reparar nas hordas de gajos com ramos de flores na mão, com embrulhos, até mesmo com balões. Eu até compreendo as flores e os embrulhos, procurando cair nas graças da fêmea, para depois à noite ser mais fácil convencê-la de que o sémen faz bem à pele (neste capítulo, baseado na minha própria experiência deixo-vos um pequeno conselho: se ela for dermatologista, poupem-se ao  esforço).  Mas balões? Que género de gajo dá balões à namorada? Só se for o gajo que anda a varrer a Picolé.

A mim não me apanham em semelhantes figuras. Andar a gastar dinheiro em presentes para namoradas minhas? Já bem chega o dinheiro que lhes pago para elas me satisfazerem sexualmente, a somar ao que pago por quartos de pensões, residenciais e, de quando em quando, hotéis.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Terça-feira gorda ou terça-feira, gorda?

Hoje fui almoçar fora com dois bons amigos que já não via há algum tempo.  Um deles, o Paulinho, talvez um tanto ou quanto esquecido das minhas fobias, levou consigo uma colega de trabalho cuja massa corporal variava na razão proporcionalmente inversa à sua própria inteligência. E se ela não pesava 120 kg, menos de 119 também não pesava. Era, portanto, citando Gonçalo Waddington, daquelas que "vêem o reflexo da senaita na pocinha de água da sanita".

Ora, gorda e estúpida, uma conjunção de características a que normalmente se associam suores bafientos e reacções despropositadas. Os primeiros, não sei bem como, fui-os suportando herculeamente durante o repasto, já as segundas acabaram por desembocar numa espiral de violência por alturas da sobremesa.

Passo a explicar o que aconteceu:

Estando nós em plena época carnavalesca, o tema veio, forçosamente, à baila. Depois de eu explanar a minha teoria sobre os homens que, por estes dias, se mascaram de matrafonas (ver nota), o meu  outro amigo, de seu nome Raúl, do alto da sua ingenuidade , teve a infelicidade de colocar a seguinte questão, olhando a gorda nos olhos: "Costumas mascarar-te na terça-feira gorda?"  Não coloquei nenhuma vírgula entre terça-feira e gorda, porque o meu amigo não fez a mais pequena pausa entre as duas palavras. Qualquer pessoa com um Q.I. superior a 70 perceberia que não havia qualquer resquício de malícia naquelas palavras e que o Raúl se referia à terça-feira de carnaval, por conseguinte não estava a chamar gorda à gorda. Mas quer tenha sido por ter a mania da perseguição, quer tenha sido por desconhecer o que seja a terça-feira gorda, a baleia espetou tal lamparina no Raúl que, para além do pudim de ovos que este levava à boca, até lhe saltaram os óculos. A avaliar pelo volume da talocha da badocha, aquilo é coisa para ter doído consideravelmente. Não me pude conter perante tamanha afronta e logo de seguida, espetei com o meu doce da casa e com a baba de camelo do Paulo nas fartas bochechas da gorda, prensando-as com genica, até começarem a pingar. Para rematar dei-lhe uma biqueirada na colossal padaria, alheio à possibilidade de ficar com o pé preso naquela miríade de refegos.

A sorte da gorda foi o Paulo ter-se interposto entre nós, pedindo-me que me acalmasse, o que acabou por acontecer, mas não sem antes proferir estas palavras: "Gorda da merda, que mal olhei para ti fiquei mal disposto. Havias de ficar de caganeira três meses para ver se emagrecias!"

Nota:

Apesar do seu tremendo valor sociológico e do reconhecimento que encontrou entre os meus pares, vou tentar resumir, em poucas palavras, a minha tese de mestrado de 418 páginas, cujo tema é "Dos homens que se mascaram de matrafonas no Carnaval": no fundo, são todos paneleiros.